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17/SAMIR


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 17/SAMIR

 
Eu já gostava de mel antes, mas depois do Samir eu passei a gostar mais: no futuro e no passado. Passei a gostar de mel desde menino e também a ansiar por sentir aquele cheiro, o do Samir, de mel.

O Samir colocava mel em tudo. Pão com mel, abacaxi com mel, biscoito com mel, sorvete com mel, mel sozinho, até eu com mel ele comia. Uma vez, ele pingou mel no meu peito, só um pouquinho, pra me lamber. Outra vez, passou mel na minha boca, com os dedos, e me beijou. Será que o Samir gostava mais de mel do que de mim? Difícil, porque ele gostava muito de mim.

E eu gostava dele, que – além de cheiro de mel e cheiro de tesão – era também quentinho. O Samir estava sempre mais quente do que eu, eu não sei bem como funciona essa coisa de temperatura corporal, achei que todos tivéssemos os mesmos graus, mas não. E ele estava sempre com calor, então tirava a camisa, e eu amava esse gesto desde o princípio: primeiro, ele reclamava de estar encamisado, e então cruzava os braços para segurar a barra da camisa, e a puxava de uma só vez, arrancando-a pela cabeça. Os olhos, fechados por um momento, abriam-se aliviados, e ele logo olhava para o peito e se alisava, num óbvio gesto de colocar todos os pelos na mesma direção, ou na direção certa. O Samir tinha um pelo tão bonito no peito, era uma coisa rara. Era um pelo liso e macio, e adorado, por mim e por ele. Na idade em que tínhamos, era raro um rapaz com um peito tão terno e masculino como aquele. Ele já parecia um homem.

Ele tinha dezessete; eu, dezesseis, mas nossa diferença era menor que um ano. Logo eu o alcançaria. O Samir veio do sul de Minas (o pai fora transferido no trabalho) e, quando o vimos, todos nós, que estávamos sentados em nossas carteiras e desejávamos homens (com ou sem camisa, com ou sem cheiro de mel), nos apaixonamos por ele. Porque ele era lindo, forte e disse: “Bom dia!”. O que mais podem adolescentes de dezesseis anos desejar?

O danado logo fez amizade com todo mundo. Os tímidos, quando são desejáveis, não têm dificuldade de se enturmar. E o Samir era gentil como se fosse um homem mais velho – era a associação que eu fazia – apesar de ele aparentar ter a idade perfeita, a idade dos deuses: era um adulto jovial. De novato a prêmio, o caminho foi curto. Quem o teria? Houve brigas e amizades por conta de sua inclusão nos dramas da escola.

Mas o Samir me quis, a mim, eu, que também não era qualquer um. Eu também era doce. A estratégia dele foi óbvia, mas sagaz. Logo percebeu que torcíamos para o mesmo time, o Soberano, e me chamou para assistir a um jogo em sua casa. Morava com os pais e duas irmãs mais novas, bem mais novas. A primeira vez que entrei no apartamento, lembro-me de ter pensado: “ele é rico!”. Não era verdade. Era apenas uma classe média menos média que a minha. O apartamento era um duplex, e o quarto do Samir ficava isolado, no andar de cima. Seu pequeno paraíso tinha uma sala, um quarto, um banheiro e um terraço imenso, com móveis de jardim e muitos vasos com plantas.

Assistimos três jogos do São Paulo em menos de duas semanas. E naqueles três jogos, nada aconteceu. Bem, aconteceu coisa pra caralho, mas só na minha cabeça. Na verdade, aconteceu sim. Nas cabeças – nossas – e entre elas. O Samir era safo e já sabia muito bem para onde estava me levando. No primeiro jogo (São Paulo 3 x 0 Atlético-MG), nós chegamos, ele buscou amendoins e guaraná, e tirou a camisa e o tênis ainda no primeiro tempo. Falou pra eu ficar à vontade também, mas era a última coisa que me passava pela cabeça, ficar à vontade. No segundo jogo (São Paulo 1 x 0 Guarani), ele ficou o tempo todo vestido, a chuva esfriou a noite, mas ele se aproximou com as palavras. Disse que estava há três dias sem andar de bicicleta, e que isso o deixava agitado, e que quando ficava assim só uma punheta era capaz de aplacar sua agitação. No terceiro jogo (São Paulo 4 x 2 Botafogo), era um domingo, estávamos sozinhos no apartamento, e ele já me atendeu só de cuecas, dessas que parecem uma sunga, só que folgadas, deixando visíveis e irresistíveis todos os movimentos. Ele foi me buscar na porta do andar de baixo e ficou apenas alguns segundos de frente para mim, mas eu pude, em um relance, ver o desenho da cabeça de seu pau através do pano. Fiquei duro imediatamente. Subi a escada com os olhos pregados em suas coxas, de ciclista, bem naquele lugar onde a coxa começa a virar bunda. (Meu Deus, eu me lembro exatamente das formas do Samir, mesmo depois de tanto tempo!) Ele passou o jogo todo de cuecas; de vez em quando, enfiava a mão lá dentro, mexia no saco, no pau. Na hora do intervalo, fomos para o terraço e eu notei que ele estava excitado. Ou melhor: notei que ele se exibia, fingido alguma displicência.

Nessas duas semanas, foi isso o que rolou (ou que não rolou). O Samir desfilando sua delícia e eu batendo punheta em casa, lembrando cada detalhe do seu corpo. Então, na segunda-feira de noite, eu cheguei em casa e minha mãe me deu um recado.

– Um amigo seu da escola ligou, Samir, é pra você ligar pra ele.

Senti um calafrio. Era só um recado, mas me vi devassado, como se fosse possível para qualquer um fazer o mesmo que eu: associar aquele nome a fodas imaginárias.

– Educado, esse seu amigo! Conversou comigo. Falou que é novato, que é de Pouso Alegre. Ele ligou pra você ir lá na casa dele amanhã, depois da aula. Que é pra vocês estudarem. Pra você dormir por lá também. E que, na quarta, depois do jogo, o pai dele te traz em casa. Me chamou de senhora.

Fiquei num misto de euforia e medo, pois intuía os próximos movimentos do Samir e, ao mesmo tempo, me perguntava: por que agora? Por que tanta informação? Pra que tanta conversa com a minha mãe? Eu tinha medo que alguém desconfiasse que eu morria de tesão por um amigo (ou por qualquer homem)... naquela época as coisas eram diferentes. Fingi que era tudo cotidiano.

– Beleza... – respondi.

Liguei pro Samir, combinamos, e, antes de ir dormir, arrumei uma mochila com roupas para terça e quarta. Escolhi minhas melhores cuecas, no caso de eu querer ficar mais à vontade. Depois da aula, no final da tarde, fomos pra casa dele, e a mãe dele preparou lanche pra gente. Disse que tinha lençol e travesseiro pra mim lá em cima, que era só puxar a bicama debaixo da cama do Samir.

Estudamos quase nada, jogamos FIFA Soccer, vimos vários pedaços de filme na TV. Samir mencionou que não havia andado de bicicleta. Na hora de dormir, ele fez questão de arrumar minha cama. Uma gentileza. E no meio das conversas, enquanto arrumávamos as camas e mochilas para o dia seguinte, ele foi tirando a roupa. Só de cuecas, entrou para o banheiro. O chuveiro foi ligado. E o Samir continuava falando comigo. Pode parecer besteira, mas saber que ele estava pelado, no banho, e conversava comigo, me deu um tesão da porra. Mais tesão ainda que o tesão da porra, na escala subjetivíssima do tesão. Ele me chamou. Pelo nome. Entendi que era pra eu ir lá dentro, mas respondi do quarto mesmo. Ele queria que eu lhe levasse a toalha; malandro! Eu fui com a toalha, ele ainda estava com o chuveiro ligado. Eu pude vê-lo através do vidro canelado do box, “puta que pariu, eu vou morrer pelo pau”, eu pensava. Pendurei a toalha no banheiro e saí. Obviamente, ele não se contentou em se enxugar no banheiro. Eu já tinha memorizado aquele corpo. Mas, assim, sem cuecas, molhado, era outra coisa. Finalmente, vi seu pau, seu saco, eu sempre gostei de ver o pau de outros caras, em qualquer circunstância. Ele se enxugou mais do que deveria. Vestiu uma cueca azul clara, apertada e larga ao mesmo tempo (não me pergunte como isso é possível), que nunca vai sair da minha memória. Me entregou uma toalha, mesmo que eu não tivesse manifestado nenhuma intenção de tomar banho, eu preferia tomar banho de manhã, antes de sair pra aula. Enfim. Entrei para o banheiro antes de me despir. Sempre tomo banho de porta fechada, mas me senti constrangido de fazê-lo. Aliás, a própria ideia de tomar banho naquele momento me caía um pouco coerciva. Entrei no banho e o Samir continuava a falar comigo. O banheiro tinha o cheiro dele e meu pau estava duro, duraço. O que eu mais queria era bater uma punheta ali, naquela hora, mas, por algum motivo, não o fiz.

O Samir entrou no banheiro, falando, falando, falando. Não justificou sua entrada, apenas ficou por ali. Escovou os dentes, não acabava o assunto. Eu fiquei de costas pra ele, sabia que o vidro canelado dava uma visão fragmentada mas suficiente a quem estava do outro lado, e não queria que ele me visse de pau duro. Não queria entregar meu tesão. Eu ainda tinha vergonha de mostrar-me no que eu mais queria. Senti que teria que ficar no banho até o final da eternidade se fosse esperar que o Samir saísse do banheiro. Então desliguei o chuveiro, puxei minha toalha pra dentro, me enxuguei ali mesmo e saí enrolado nela. O Samir veio atrás. Já não tinha mais o que falar, mas não parava de me seguir com conversa. Então vesti minha cueca, de costas pra ele, como um menino tímido. Quando fui colocar a bermuda, ele me disse:

“Pode dormir só de cueca, cara. Fica à vontade, de verdade...”

Então eu entrei só de cuecas debaixo do meu lençol. Era tanta vergonha daquela situação que até hoje eu não entendo. Não era uma vergonha moral, era uma timidez expectativa. Eu queria retardar o que não entendia, e a cada segundo de ignorância me sentia exposto diante do Samir, que parecia saber desde antes de nascer o que iria acontecer a seguir.

O Samir também se deitou, ficamos falando de frivolidades (mais ele do que eu) por mais de meia hora. Quando o assunto cessou, cada um ficou com seu silêncio. Eu, de olhos fechados, só conseguia visualizar o Samir a menos de um metro de mim, deitado, cheiroso, de cuecas. Tinha medo que minha mão criasse vida própria e escalasse para cama de cima, caçando-o, ou que minha boca, num susto, mordesse as carnes da sua bunda.

Eu já estava lá, no meu pensamento, coladinho no Samir, quando ele disse:

– Você é tão branquinho, né?
– Sou, ué! – foi o que eu respondi. O que eu pensei: meu corpo está nele.
– E não tem pelo nenhum, também, né?
– Uhum – eu concordei. Achei que deveria falar alguma coisa, então falei. – Você é o contrário: moreno e peludo!

– Você me acha peludo?

Ele se assentou na cama e acendeu a luz do abajur. Olhei pra ele e ele fingia uma cara de quem estava surpreso e nada satisfeito com a minha colocação. E esperava uma reposta.

– Bem, você não é peludo, “peludo”... mas você tem pelo... no corpo todo...
–Você acha feio?

O filho da puta era muito esperto. E eu era um patinho.

– Não, não acho feio. Eu só fiz uma observação.
– Eu gosto dos meus pelos! – ele falou em tom de brincadeira e riu.
– Bom pra você!
– Sabe do que eu gosto? – e ele mesmo respondeu – De ficar passando a mão.
– Eu já notei. Meio patético, alisando os pelos do peito, da barriga, das coxas.

Pronto, eu estava indiretamente mas declaradamente me rendendo. Era muita ingenuidade. Daí pra frente – ele mesmo me falou isso depois – o Samir sentiu que dava pra arriscar uma aceleração.

– Deixa eu passar a mão no seu peito? – ele me propôs.
– Vai à merda! – eu respondi, meio machão, e isso é totalmente absurdo, mas foi o que eu fiz.

Ele não disse nada. Ficou me olhando como se o pedido ainda estivesse de pé, como se minha resposta tosca não o tivesse cancelado. Ficou sério, mesmo. Já estava dito, para ele, o que deveria ser dito. Ele queria colocar a mão em mim, pediu educadamente e estava esperando o meu consentimento. O meu silêncio depois do “vai à merda” se esticou mais do que deveria. Então o Samir deitou-se de bruços, no canto da sua cama, e esticou a mão até o meu peito. Mão boa. Foi me alisando o peito e os ombros. Com o polegar, mexeu nos meus mamilos. Status do meu pau: rasgando o universo e criando um buraco negro no cosmos, o que logo atraiu a mão do Samir, que foi dedilhando minha barriga e entrou, marotamente, dentro da minha cueca. Era isso mesmo. Tinha um outro cara, que não era um qualquer, era o que eu queria, com a mão no meu pau, e ele pegava de um jeito tão gostoso, com uma mão tão quentinha, que eu me assustei, recuando um pouco.

Ele parou, me olhou fixo; um olhar “está tudo bem, nós dois queremos”, e pronto; eu já queria a mão dele de novo. Ele todo, eu queria.

– Chega pra lá – e ele já veio se acomodando do meu lado. E me puxou pra ele, pau com pau, e sua mão me fez um carinho na orelha, e ele me beijou. Beijou pra valer, bem suave, mas com força. Era coisa de quem tinha a experiência, mas – saibam – era a primeira vez que o Samir ficava com outro homem. A experiência dele era daquele outro tipo, a do desejo.

“Beijo de menino é que é beijo bom”, essa sabedoria me cruzou a mente. O Samir era muito gostoso. Ele se enroscou e mim, e seus pelos – do peito, das pernas – me acariciavam o corpo inteiro. Ele pegou no meu pau, eu pequei no dele, mas não éramos muito bons em punhetar o outro. Acho que foi a única coisa meio estranha daquela transa. Aí o Samir resolveu me chupar. Eu nunca tinha transado com ninguém e o primeiro ser humano que meu pau visitou foi o Samir: entrou pela boca quente dele, uma loucura! Ele tinha lábios grossos e muito macios, e deslizou sobre mim. Reparei que tinha uma língua larga (juro que reparei isso!). E entre ser abocanhado e sentir que iria gozar não durou muito. Não pude controlar e jorrei-me pra dentro dele. Ele não parou, me sugou, de chupar forte mesmo, e eu achei que pudesse ter um troço, porque nenhum gozo de punheta era igual àquilo. Ele me chupou, eu e minha porra, até meu pau ficar mole. E então começou a rir, e deitou a cabeça na minha barriga.

Eu e o Samir transamos centenas de vezes e eu não me lembro de uma vez sequer que ele tenha me chupado e deixado de engolir minha porra. Talvez ele gostasse mesmo mais de mim do que de mel. Eu adorava isso, adorava que ele se deleitasse com meu leite, com meu vale.

Eu amei o Samir, naturalmente, porque ele não correspondia a nenhuma fantasia. Ele fundava possibilidades tão novas, que era como se ele fosse o meu deus particular, inventando minha vida, tendo-me. Eu o adorava. Adorava seus beijos longos, longuíssimos, com gosto de mel. Gostava do seu cu apertando meu pau. Era raro eu comer o Samir na mesma posição do início ao fim de uma transa. Ele falava “péra”, e trocava de posição. Tinha essa tara, de ser comido em vários ângulos. Dizia “me fode”, e isso soava carinhoso; coisas do Samir. Quando me comia, mesmo tendo um pau muito largo, conseguia fazer isso de um jeito delicado e atento. Não é pouca coisa. Samir era, quase sempre, o passivo, mesmo com seu pau dentro de mim. Não sei explicar isso muito bem. Não se cansava. Lembro-me de uma sexta-feira em que transamos doze vezes. Todas foram boas.

Dá pra ficar uma década rememorando minhas fodas com o Samir. Transamos direto durante uns oito meses, até ele se mudar de volta para Pouso Alegre. Depois disso, transamos apenas mais uma vez, uns três anos depois, quando ele voltou de visita à cidade. Dá pra ficar um século escrevendo esse amor.

Está tudo guardado aqui. Tenho tudo à mão, se precisar. No entanto, guardo aquela primeira semana dos jogos – os do São Paulo e os de sedução – e aquela primeira noite – sua cueca azul clara, apertada e larga, sua mão no meu peito – em um lugar especial. Quando vejo minha vida de uma vez só, como uma grande linha que começa lá no meu nascimento, vejo esse tempo que gozei do Samir como um clarão, iluminando tudo ao redor. Ainda o amo, ainda tenho tesão nele; mesmo após uma vida quase inteira, ainda gosto de seus pelos, dos seus dezessete anos.

No dia em que eu fiz dezessete anos, transamos num motel, ele pagou, fomos com o carro do primo dele. Transamos várias vezes, e eu me lembro vividamente de uma imagem: eu, deitado na cama, e o Samir encaixado no meu pau, fodendo-se-me. Então ele abriu os braços, como um equilibrista, e continuou subindo e descendo, cada vez mais veloz. Eu o via se sacudir sobre mim naqueles espelhos todos – músculos e cabelos – e achei que ele era o melhor homem do mundo, para tudo, porque ele me parecia o mais satisfeito. Ele sabia gozar de um momento (de outro homem) como ninguém. Ele tinha dezessete anos: um prodígio.

Pediu salada de frutas, no final da noite; com mel. O primeiro homem com quem eu transei era foda, e seu cheiro de mel ficou impregnado nas minhas narinas. Depois do Samir, foi difícil para mim, humano, me contentar com fodas mal dadas. Queria comer de tudo, até me fartar, e ser comido com satisfação. Queria alguém que não desperdiçasse minha porra.




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PRESSA

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PRESSA 
           

Os e-mails que chegaram por último não foram respondidos nem terminei de arrumar minha mesa como geralmente faço nem vi o computador se desligar desci correndo as escadas estava ansioso demais para esperar o elevador joguei tudo pra dentro do carro fui logo dando a partida para poder pegar a balsa das seis da tarde fiz várias manobras para colocar o meu carro à frente dos outros a fim de poder partir tão logo as cancelas fossem abertas acelerei pelas ruas fiz na contramão o último trecho antes de chegar em casa o correto seria fazer a volta no quarteirão mas essa opção me tomaria preciosos minutos o portão eletrônico subia eu avançava garagem adentro ao mesmo tempo em que desligava o som e fechava os vidros a agitação quase me atrapalhou a achar a chave certa e encaixá-la na porta não seria esse último empecilho que me retardaria.

Finalmente eu estava em casa. A casa que era minha e de meu amado.

Meu amor, por quem eu tanto corria, meu homem, só chegaria daí a duas horas.

Entretanto, parte da minha alegria, da excitação, estava na expectativa, na espera, no ponteiro, vagaroso, do relógio. Eu tomei meu banho, demorado, raspei o peitoral, como ele gosta, mas deixei a barba. Separei o vinho, o de sempre, deixei tudo preparado para o macarrão, para depois, e troquei o galão de água do filtro. Procurei o livro entre as almofadas, no sofá, e, achando-o, tomei seu lugar, deitado, para continuar a leitura. Logo parti para a Arábia, no livro, conheci outro homem, a princípio, e decidi que ele era bom, como personagem. Parei, refleti, sonhei, voltei para o livro, depois, realmente, para o sofá. Voltei à cozinha, comi uma maçã, das verdes, e, então, voltei ao banheiro, escovei os dentes, e voltei, mais uma vez, à sala. A qualquer hora, a partir de agora, ele poderia voltar, chegar.

Agora.

Agora.

Agora.





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NOVA JÉRSEI

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NOVA JÉRSEI


O telefone insiste no vazio da casa. Ela caminha apressada, receosa de que a chamada se interrompa. 

— Alô! — em seguida, apenas ouve e assente com a cabeça como se pudesse ser vista do outro lado da linha. — Às seis... okay. — E desliga.

Ela sai pela porta dos fundos e fita o enorme galpão destoante da paisagem suburbana de Nova Jérsei. Lembra-se, por um instante, da resistência dos vizinhos quando estava sendo construído, mas a concórdia seria comprada pela história de Daniel F. Wood. Ela cruza os braços, com uma das mãos ao pescoço para evitar o vento, deveria ter colocado o cachecol, ela pensa. 

O calor do galpão tem cheiro de cloro, que é o mesmo cheiro do filho, que nada em uma piscina longa e estreita, sob a claridade fluorescente das dezenas de luzes que pendem da estrutura de metal. Ela se assenta em uma cadeira de plástico e observa a organização dos pertences do filho: óculos, mochila, toalhas, toucas, chinelos. Todos levam seu nome, Dan Wood, grafados no mesmo tipo, logo abaixo da logomarca do patrocinador. 

— Dan! Dan, meu filho! — ela chama à beira da piscina de duas raias. 

Dan ergue a cabeça e interrompe a natação. Tira os óculos e a touca e encara a mãe. 

— Você pode completar as séries. O Phill vai se atrasar.

Dan volta a nadar. Ela hesita, não sabe se fica por ali ou se volta para a casa. Se ao menos eu tivesse trazido o livro. Decide voltar. Em casa, checa o smoking que o filho irá usar mais à noite. Pensa que mesmo satisfeita com a independência alcançada por Dan, conquista de esforço que lhe custara dinheiro e sofrimento, o filho de 26 anos ainda precisa de ajuda para se vestir com elegância. Desce à cozinha, vou preparar alguma coisa, gosta de cozinhar para o filho, mas desiste, não gosto de mexer nos utensílios de Phill.

A ligação que recebera há pouco era dele. Iria se atrasar. Mais cedo, os três à mesa do café, Phill pedira à Rachel que convencesse o filho a sair mais cedo da piscina, pois iriam a Nova Iorque para o vernissage de seu antigo parceiro, mas com o atraso no trabalho não precisaria bagunçar a rotina de Dan. Rachel tinha dúvidas quanto às intenções de Phill ao levar o filho ao vernissage, mas para que discutir, meu menino nunca sorriu tanto quanto depois de viver com Phill.

A história de Dan Wood é conhecida por todo o país, em muitas versões, e mais recentemente, mundo afora. Diagnosticado como autista, ainda em Idaho, viveu uma infância atípica para sua deficiência. Frequentou a escola até o Junior High, quando começou a nadar. Aos 18 anos, competia profissionalmente e participou de duas olimpíadas, cinco medalhas de ouro e uma de bronze, all american, contratos publicitários, fascínio da mídia. Nenhuma entrevista. Dan não fala. Há dois anos, desde que se recusara a competir, vive com o estilista Phillip Green, episódio explorado em diversos ângulos pelos formadores de opinião mais proeminentes da supernação, ainda pouco preparados para a relação homossexual entre o campeão olímpico retardado e a célebre figura da milionária indústria da moda. 

Às cinco, Dan para de nadar, às cinco e vinte e cinco vê seu homem preferido entrar junto com ele no box para um banho rápido. Dan quer transar, mas Phill explica que estão muito atrasados. Às seis, espera Phill acabar de se arrumar para ser ajudado. Às seis e vinte e cinco, feliz com os cabelos pretos brilhosos de gel, despede-se da mãe e entra no Lexus com Phill ao volante. Às seis e cinquenta, estão no Lincoln Tunnel e, finalmente, às sete e trinta, entram juntos, mãos dadas, Phillip faz questão, pelo hall da galeria de arte. Em questão de segundos, roubam as atenções, que logo vão se dispersar entre o público que se esforça para preservar alguma fineza de comportamento.

Nathan, antigo parceiro de Phill, expositor da noite, vem recebê-los. Desde que se separaram Phill e Nathan mantêm-se distantes, final traumático, muitas vaidades arrazoadas, embora haja em secredo o desejo de reaproximação. Nathan não sabe como cumprimentar Dan, o que dá alguma satisfação a Phill. Depois de algumas formalidades o anfitrião deixa o casal.

Por entre as telas e as conversas de Phill, Dan permanece de mãos dadas ao homem que ama, atraindo os olhares dos que não têm nomes tão poderosos quanto os deles. Se fosse desconhecido, em seu silêncio, Dan passaria por um homem normal. Mas todos sabem. 

No lounge iluminado de vermelho, Phill admira a beleza branca de Dan tomar um leve rosado e acaricia-lhe a pele. Dan afasta sua mão com medo de ter despenteado seus cabelos. Em seguida, Nathan senta-se próximo, traz na mão duas taças de espumante amarelado, uma para Dan, uma para o homem a quem quer afetar. 

— O que você achou? 
— A melhor. Sem palavras. 
— Mesmo?
— Eu havia me esquecido desse seu poder, de entrar na minha alma, na alma das pessoas. Eu queria que todos tivessem a chance de tê-lo, como eu tive. 
— Por que você está dizendo isso? — Nathan não recebeu o elogio. 
— Só estou dizendo... é no que eu acredito. 
— No que você acredita? Eu tinha me esquecido que você é cheio de crenças, Phill... 
— Desculpa, Nathan, eu não queria que a conversa fosse...
— Sabe, Phill, de todas as crenças que você formula com tanta facilidade, a que eu tenho certeza de que você mais goza é a de se achar superior a todos os outros! 

Phill nada diz. 

— Você se acha realmente melhor do que eu? 
— Nathan, eu queria que depois de tudo que nós vivemos juntos... 
— Responde o que eu perguntei: você se acha realmente melhor do que eu? 
— Nathan, se eu não o conhecesse bem, diria que você se importa com isso... Mas eu sei bem que você está tentando fazer uma cena pública, um episódio, um acontecimento para sua grande noite! — Phill tem o rosto frio, distante. — Por que você não guarda suas catarses para suas telas? 
— Por que você não pega o seu namoradinho debiloide e sai daqui? 
— Elegante, como sempre, Nathan... 

Phill levanta-se acompanhado por Dan. Este sorri para Nathan, certamente sem a noção do estrago que seu semblante sincero faz no artista. 

— Você adora o mongolzinho, não é? — Phill faz menção de se retirar, mas eu vou dizer umas verdades a ele, filho da puta! e fica para ouvir o que Nathan tem a dizer. — Quem não gostaria? Quantos anos ele tem? Vinte? Vinte e cinco? Gostoso que só ele, você sempre quis um atleta na sua cama, não é verdade, Phill? E que beleza, é retardado! Ele faz tudo que você manda? Fode direitinho? Ou ele é desses loucos violentos? Ah! eu adoraria ver você implorando para ele parar de te arregaçar, Phill! Já sei, melhor, ele tem alguma habilidade matemática! Além de brinquedo sexual ele é o seu novo contador? Seu Rain Man particular?

Phill desiste de revidar. Certifica-se do pior, todos o observam. 

— Exatamente, Phill! É hora de você ir embora com seu trofeuzinho! A quem você acha que engana com essa relação patética? Você não tem nem ao menos a curiosidade de ligar a televisão para entender o quão bizarra soa essa sua brincadeira? Por que você não trouxe o menino com as medalhas no peito? Demais pra você? 

Apesar de tanta firmeza no falar, o próprio Nathan parece incomodado como o interrogatório retórico ao qual submete o homem que o faz ferver. Dan, Dan Wood, o campeão olímpico, parece alheio aos insultos que lhe são feitos. Com um gesto largo, bebe todo o espumante em sua taça e dá a entender, pelo menos a Phillip, que ficaria grato se pudesse tomar também o do parceiro. Phill passa a ele sua taça e o espumante some para dentro de Dan. O sorriso de Nathan ao acompanhar a cena dispensa o deboche que estava preste a vir à tona. Phill faz o gesto de quem se prepara para avançar, enche o peito, estica os joelhos, mas não vale a pena, vai ser pior para mim e para o Dan, sente um desconforto quente na garganta, ânsia de vômito. Puxa Dan pela mão e vão embora, às nove e cinco. 

Dirigindo de volta a Nova Jérsei pensa nos comentários que viriam; impossível que vivesse nesse tempo em que há tanta história para ser contada e que ele estivesse nelas de maneira que não lhe agradava. Cumprimenta Rachel. Os três tomam a sopa que ela preparou. Phill vomita mais tarde, não deveria ter comido, tinha certeza. 

Quando despe Dan, recusa o pedido de sexo do delicioso e excitado rapaz em suas mãos, e prepara-se para dormir, e não gosta de ser o homem que é. Sonha vergonhas terríveis e acorda várias vezes, e sente-se mal por sentir vergonha, preferia sentir medo, e sente mais vergonha. Pela manhã acorda Dan e logo acorda Phill, que admira a beleza do homem incompleto a quem ele escolheu para ser o seu troféu. Seu autista, agora é seu, não é de mais ninguém, tem mesmo aquela habilidade que gera os comentários: ele é retardado mas dizem que consegue, ele não fala mas dizem que é capaz de, ele é deficiente mas é um dos maiores atletas do mundo. 

Dan olha dentro dos olhos de Phill. Dentro, como quem entende todas as elucubrações da mente sadia e arredia de um homem como Phill. E pede carícias, e cede seu corpo, e não perde a chance de voltar a olhar nos olhos do homem que o coleciona. Poucos conseguiriam resistir aos olhares lancinantes de Dan. E ele força sua entrada e o seu prazer, sua vitalidade, é um atleta olímpico! que bem isso lhe faz. 

Depois, à mesa, Phill e Rachel preparam um robusto café da manhã, Dan nada oito horas todos os dias, mesmo sem competir, precisa se alimentar bem. Phill, é sexta-feira mas ele não vai trabalhar, fica no galpão, lendo algumas revistas antigas, moda, tendências. De vez em quando, o barulho da água chama o olhar e ele se lembra de Dan. Ninguém sabe, só ele, mas Dan sempre goza junto, sua proeza. Quando transam, a qualquer hora, em qualquer lugar, a circunstância não importa, gozam juntos. Dan lê sua mente e faz seu gozo sincronizar com o do homem que o venera. Será? 

Phill despe-se e salta para a água, aquecida. O cheiro de cloro o excita. Dan logo nada em sua direção. Dá certo, Phill celebra, e sente um desejo inusitado de fazer coisas que considera certas. 





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HERÓI

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HERÓI 


Ele achou que me surpreenderia, mas não. Quando ele veio se juntar a mim no banho, eu já o esperava. Eu realmente gostava de transar no banho, especialmente pela manhã, e ele logo aprendeu o bê-á-bá dos meus agrados. Eu de alguma forma já o havia letrado.

Chamava-se Guilherme, mas poderia ser qualquer palavra. Como tantos outros, Guilherme pensava encenar o personagem por quem eu me apaixonaria, aquele um a quem poderia confiar sua vulnerabilidade. Não posso negar que era um dos melhores atores; suspeito que ele sabia bem de si mesmo, pois se deslocava muito rapidamente para se antecipar aos meus caprichos. Para o sexo, movia-se no tempo certo: esperava na hora de esperar, avançava na hora de avançar, pedia e oferecia, sempre atento ao meu corpo. Tinha um mapa de mim: mãos, mamilos, ouvido. Quando me buscava pelo ouvido – com perguntas e respostas – acertava! Queria saber do seu desejo, mas perguntava sobre o meu. Respondia-se, mas a recompensa vinha para mim. Seja feita a minha vontade! O prazer que me dava, ou melhor, que me fiava, era o suficiente para o meu afeto, mas pouquíssimo para o meu desejo... 

Mas, olha, como era lindo o tal do Guilherme! Lindo, lindo! Fingia não saber por que razão ficava tão feliz ao meu lado, lembrava-me do quanto admirava meu senso de humor e fazia questão de esperar o meu olhar alcançar o seu, já armado com contentamento. Precioso! Uma ternura esse Guilherme! Excitava-se com meu cheiro, mandava mensagens espirituosas, me ligava à noite para dizer “sweet dreams” e, a cada dúzia de beijos, dos bons beijos, aproximava-se com o óbvio: “seu beijo é muito bom!”. É claro que era bom, Guilherme! Você é bom! Você é uma graça! 

“Me abraça!”, pediu-me, pedia-me.

Abraçar é bom também, eu é que não era muito bom com isso. Porém, parecia-me um dos poucos pedidos maduros – como fruta – do Guilherme. Por isso eu gostava. Apertei-o tanto nos abraços que cheguei a acreditar que nunca mais esqueceria seu gosto. Calma, nem tanto... 

Se eu não caísse sempre nos mesmos buracos escondidos entre o que digo (o que penso), eu poderia dizer ao Guilherme, em minha própria distração: “Me abraça você!” 

Eu guardaria você, Guilherme, se você me abraçasse. Eu manteria você aquecido se você fosse forte, se você descobrisse a cura do câncer, se você me pedisse para fechar os olhos e confiar em você. Mas você não voa, não conquista o mundo, não lê minha mente! Se a lesse, leria que também eu quero um herói. Que estou também caindo, mas que não sei clamar por socorro. Ao contrário, anuncio meu poder: sou feito de certezas, de lucros, de inimigos, de asas, de adamantium. Eu sou o poder! 

Você me ofereceu um suco. Eu aceitei. Você quis saber: 

“Suco de quê?” 

“De criptonita!”, respondi. 

Até investi em alguma paciência, esperando que você me entendesse e me atendesse, mas você não captou a mensagem. Ou captou. Não saberei, pois desisti de você, que até deu um pouco de andamento à minha vida, mas nada acrescentou à minha loucura. Eu poderia ter dito mais... mas não posso. Esse é o máximo. Se eu for além, me descolo por dentro, colo a vítima no herói. Quem quiser, é o que dou: um caminho. Isso é tudo.

E um pouco mais, vou prolongar a conversa. E se nós combinássemos assim: eu o abraço nas segundas, quartas e sextas, e você me abraça nas terças, quintas e sábados? E se eu fizesse tal proposta e você, Guilherme, ao invés de perguntar pelo Domingo, me viesse com essa contraproposta: “E se nos abraçássemos todos os dias, um ao outro?”. 

Ah, Guilherme! Se você brincasse assim com as palavras, você seria o meu herói. Então eu poderia me safar dos homens, dos nomes dos homens. Eu ficaria mesmo surpreso quando você se juntasse a mim sob o chuveiro, me quedaria suspenso, sem saber o que pensar, por alguns instantes: eu iria cair, maduro, mas sem morrer. 





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ESTOCOLMO

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ESTOCOLMO


“Quem é você?”
Ivo perguntou com impetuosidade na voz, mas se arrependeu quando sentiu que suas mãos estavam algemadas. O homem a quem se dirigia estava sentado em uma poltrona bem em frente à cama onde Ivo estava preso.
“O que você quer?”
A segunda pergunta soou assustada. Ivo entendeu melhor a situação em que se encontrava.
O mulato que o encarava parecia bem acomodado à poltrona estofada de vermelho. Estava bem à vontade, com roupas caseiras, short, camiseta, chinelos. As roupas curtas conduziam o olhar para o seu corpo forte, visivelmente, com os músculos todos à mostra, grandes músculos, porque ele era grande.
“Meu nome é Carlos.”
Voz decidida. Tinha os lábios inchados, como têm esses mulatos fortes, e os olhos marrons. O cabelo crespo estava todo arrepiado para cima, estilo blackpower, mas ainda precisava de alguns meses para chegar ao ponto ideal. Arredou-se para a beirada do assento e entrelaçou os dedos das mãos, antes de explicar a Ivo como seria.
“Ivo. Você é agora meu refém, ok? Não sei o quanto isso diz a você, mas, para não cairmos em desentendimentos dispensáveis sobre a questão, vou resumir alguns conceitos e princípios para que tudo corra bem.”
O medo foi amplificado dentro de Ivo. Apesar do aspecto marginal — mulato, forte, roupa curta — o sequestrador era extremamente bem articulado. Não pelas palavras, mas pelo jeito de pronunciá-las. O discurso era fluido, estava focado sem esforço na mensagem que desejava transmitir. Ivo não se furtou de recuperar o preconceito social que associava os crimes mais hediondos aos homens que os cometiam com sobriedade e clareza.
“Primeiro: eu mando, você obedece. Caso contrário, sua vida está ameaçada.”
Ivo olhou ao redor procurando a arma da coação. O cheiro de Carlos veio sobre ele. Perfume de sabonete.
“Segundo: nós estamos em uma chácara no meio do nada. Não alimente esperanças de escapar. Mesmo que saia da casa, não chegará a lugar algum.”
A paisagem entrevista pela janela era mata fechada, morro acima. O verde ainda estava com o aspecto molhado da chuva que cessara há pouco. Carlos levantou-se e caminhou até uma pequena estante. De dentro de um pote de porcelana, sacou a chave das algemas que prendiam seu refém. Saiu do quarto. Quando voltou, carregava uma corrente grossa, e assentou-se na beirada da cama, fazendo Ivo encolher-se em defesa.
“Eu vou soltar suas algemas. Mas você vai ficar preso pela corrente.”
Jogou a corrente no chão. Pelo barulho, eram pesadas.
“A corrente é comprida, então você vai poder se movimentar pela casa toda. Quando precisar ir ao banheiro, vou soltá-lo. Completamente.”
Apontou o banheiro com um movimento de cabeça.
“Quando você sair do banheiro, volta para a corrente. Não tente nenhuma graça! Nunca!”
Carlos fez sinal para que Ivo lhe apresentasse as mãos algemadas. Soltou uma das mãos e enganchou-a no último elo da corrente. O arranjo era frágil, sabia. Fechou o máximo que pode a algema ao redor do pulso direito de Ivo. O refém era magro, ossos finos, e Carlos quis certificar-se de que não lhe escaparia. Levantou-se da cama e dirigiu-se à porta, sinalizando a Ivo que o seguisse. Ivo hesitou. Não sabia se deveria sair de onde estava.
“Ah! Esqueci o terceiro ponto, o mais importante... pelo menos para você: não haverá contatos com sua família, nem pedidos de resgate. Se nossa aventura seguir um bom curso, em um mês eu liberto você. Um mês a partir de ontem. Vai cair no dia 23 de abril. Agora vem. Vem que eu vou mostrar a casa.”
Ivo seguiu Carlos até a porta. Não havia muito a ser explorado. Além da suíte, havia apenas uma sala de estar e a cozinha. Não era um cativeiro qualquer. Como notara desde o quarto, a pequeníssima casa na qual ficaria confinado no próximo mês havia sido profissionalmente decorada. Estilo masculino, americano, década de 30. Alguns toques de cor, nos livros, nas fotos penduradas pela parede.
“Vamos jantar agora. Depois do jantar, você pode tomar banho.”
Assentados à mesa — arroz, feijão, alface, tomate, almôndegas, suco de uva — Ivo cobrou, não sem coragem.
“O que você quer? O que você quer de mim?”
Carlos o encarou. Pousou os talheres na borda do prato, terminou de mastigar a última garfada e tomou um gole curto do suco de uva.
“Ivo. Você já ouviu falar na Síndrome de Estocolmo?”
A expressão era familiar a Ivo. Mas não fazia a mínima ideia ao que estava associada. Onde ficava mesmo Estocolmo? Na Suécia? Ou na Suíça? Abanou a cabeça negativamente.
“Vou tentar ser breve, apesar de este ser um assunto muito interessante. A Síndrome de Estocolmo fica caracterizada quando a vítima de um sequestro desenvolve um afeto positivo em relação ao seu agressor, seja ainda no cárcere ou depois de sua libertação. O estresse e a situação desprivilegiada em que se encontra faz com que alguns atos do opressor sejam interpretados como atitudes de carinho ou cuidado.”
Ivo foi acossado pela própria respiração. Se o medo daquele início de noite pudesse ser rememorado, não caberia em nenhuma sensação.
“Por exemplo. Eu estou lhe servindo uma refeição decente. Aliás, você está assentado à mesa comigo, que detenho o poder. Para uma vítima da síndrome, a interpretação óbvia seria: ele poderia não me dar nada, poderia me deixar passar fome. Ele poderia me matar se quisesse. Mas não, está agindo com humanidade, entendendo a situação em que eu me encontro.”
Carlos voltou a comer. Ivo notou sua satisfação enquanto explicava. Enquanto pensava no que havia ouvido, o medo fez uma brecha para a fala indignada.
“Isso é ridículo! Se você não tivesse me sequestrado, eu não precisaria de nenhum cuidado! Nada do que você possa fazer vai atenuar seu ato criminoso. Isso não é favor, é crueldade!”
Ivo pegou o prato, ainda com comida, e jogou-o contra a parede. Pegou também o copo, mas interrompeu-se.
“Isso não foi elegante de sua parte, Ivo.”
Carlos se levantou para limpar os cacos e a comida, sem disfarçar um deslocado desapontamento. A tarefa levou longos minutos. Sentou-se à mesa e falou firme, dedo apontado na direção de Ivo.
“O que você não sabe é que a Síndrome de Estocolmo é mais comum do que você imagina. Algumas vítimas tornam-se aliadas, amantes, protetoras de seus algozes. O que você também não faz ideia é de que não importa o que você pensa! Em menos de um mês, você vai gostar de mim. Vai ser grato. Vai se comportar como se comportam os fiéis, os agraciados com o prêmio. Mais que isso: esse sequestro, Ivo, e esse lugar aconchegante que eu preparei para você não são tão importantes como o que vai acontecer dentro da sua mente. Então, comece a ficar agradecido desde agora.”


Alguns episódios, atos, podem guiar as deduções sobre o que pode ter acontecido na cabeça de Ivo enquanto esteve no cárcere. Mesmo assim, isolados, sem continuidade, esses ventos desenham também a astúcia de Carlos em seu esforço para obter sucesso em sua irônica metáfora.

Naquela mesma noite, depois de deixar Ivo tomar sossegado o seu banho, Carlos lhe deu algumas mudas de roupas limpas, que ficaram largas no corpo magro.
“São minhas. Mas enquanto você estiver aqui pode usá-las.”
Depois de acorrentar Ivo novamente, foi ele mesmo para o banho. Não fechou a porta. Despiu-se, urinou e entrou debaixo do chuveiro, completamente exposto ao olhar de Ivo. Este, deitado na cama, via inteiramente o corpo de Carlos, dos pés aos cabelos. Evitando ser flagrado, Ivo acompanhou todo o banho, como se assiste a um filme ou a um jogo de futebol.
Carlos, sem voltar uma vez sequer a atenção para o quarto, banhava-se em todas as possibilidades. Acariciava seu próprio corpo, o prazer simples da água correndo para baixo e a mão correndo em todas as direções. Não se poupava de deslizar os dedos pelas axilas, por sobre o torso; incontáveis vezes esfregava o saco e puxava o pau com a pegada escorregadia. De costas, entrava com a mão entre os redondos glúteos morenos e jogava a cabeça para trás: a água descia do rosto aos calcanhares, tomando todos os caminhos na pele de Carlos.
Ivo, duro sob o short largo emprestado por seu opressor, começara a entender o seu cárcere.
Carlos saiu do banheiro, enxugou-se e vestiu-se no quarto, a menos de um metro de Ivo. Apagou as luzes, deitou-se na única cama que havia. E dormiu.

***

Na segunda noite, Ivo laçou o pescoço de Carlos com a corrente enquanto este dormia, na tentativa de estrangulá-lo. Acordado com o susto, Carlos nocauteou seu refém com uma cotovelada no fígado. Levantou-se da cama, acendeu as luzes e voltou para a cama. Antes de colocar a cabeça sobre o travesseiro, disparou um soco certeiro no rosto de Ivo. Deitou-se, ainda resfolegando.
No dia seguinte acordou mais cedo, preparou o café da manhã e voltou ao quarto com um saco de gelo e uma toalha de mão.
“Deixa eu ver seu olho.”
Ivo mostrou o estrago. Carlos sentou ao seu lado e fez o movimento para colocar o gelo sobre o hematoma, mas Ivo tirou o rosto e tomou-lhe compressa e toalha das mãos.
“Deixa que eu sei me virar.”
Carlos não insistiu. Já ia saindo do quarto quando perguntou:
“Você iria me matar? Se eu não tivesse me livrado da corrente, você iria até o fim? Até que eu estivesse morto?”
Foi uma pergunta retórica, embora Ivo tenha sentido que poderia tê-la respondido, dizendo que não, que não o mataria.
“Vamos, o café está na mesa.”

***

No quarto dia, Carlos lia na sala de estar. Passava a maior parte do tempo assim, quando não estava preparando as refeições ou limpando a casa. Ivo sentou-se no outro sofá, o menor. Carlos baixou o livro para ouvi-lo.
“Posso pegar um livro para ler?”
Carlos levantou-se e foi até a estante da sala.
“Pode pegar qualquer um aqui. Mas eu gosto que fiquem nessa ordem. Então, para não bagunçar, quando você tirar um livro, você deita, assim, o que está logo antes dele. Para depois você saber exatamente onde ele estava. Entendeu?”
Ivo entendeu e gastou quase vinte minutos para escolher um livro. Não gostava muito de ler. Uma coletânea de contos: Asimov. Deitou-se no sofá menor e logo trocou de posição, pois tinha de manter a mão esquerda voltada para o centro da sala, para que a corrente não ficasse sobre seu corpo.
Entre as páginas, desviava o olhar para Carlos, o corpo espalhado no outro sofá. Estava relaxado e concentrado.
Leu oito livros enquanto esteve no cativeiro. Só o primeiro fora escolhido por ele.

***

No sétimo dia, após o almoço — macarrão com linguiça — Ivo ofereceu-se para arrumar a cozinha.
“Você faria essa gentileza pra mim?”
Ivo respondeu que não havia problema. Ouviu as explicações de Carlos, mas já sabia onde estava cada coisa e onde deveria guardar tudo.
“Hoje eu vou ter que sair. Volto antes do anoitecer. Esteja aqui, ouviu bem?”
Ivo pensou em fugir, estudou alguns meios. Mas a ideia de ir passou. Carlos saiu e voltou no espaço de três horas. Chegou carregado de sacolas, havia feito compras.
“Obrigado. Pela cozinha. Depois do jantar eu vou dar uma volta pela estrada. Você quer vir comigo?”
Depois do jantar, Carlos moveu a algema da corrente para o próprio braço e saíram, presos um ao outro. Agora Ivo havia entendido o que era “o meio do nada”. Mesmo em noite clara, não se podia ver o lugar em que estavam. A estrada a que Carlos se referira era apenas um caminho barrento. Não havia luz senão a da lua. Caminharam em silêncio por quase meia hora, até o início da chuva. Carlos sugeriu que tirassem os chinelos para voltar.
Em casa, Carlos só abriu as algemas quando estavam os dois dentro do banheiro.
“Me dá sua roupa. Pode entrar no banho, se quiser. Já volto.”
Ivo entregou-lhe as roupas molhadas e entrou no banho. Em alguns segundos, Carlos reapareceu, nu, e ficou ao seu lado, próximo ao chuveiro.
“Deixa eu me molhar enquanto você se ensaboa.”
Trocaram de lugar. Carlos poderia ter feito algum comentário sobre a excitação de Ivo, que ficava sempre de costas para esconder sua ereção, mas fingiu não ter notado. Acabaram o banho, alternando-se sob a água. Ivo voltou para a corrente.

***

“Porque você está fazendo isso?”
Era o décimo dia, bem à noite, a luz do quarto já estava apagada.
“Eu quero que você goste de mim.”
Ivo não soube o que responder. Deveria ter perguntado olhando para Carlos, à luz, para poder ouvir a resposta olhando nos olhos.
“Eu não desgosto de você. Aquele dia, de noite, eu estava assustado, eu não iria matar você. Eu nunca faria isso!”
Carlos levantou-se da cama e acendeu a luz. Sentou-se na poltrona vermelha, encarando Ivo.
“Isso não basta. Não desgostar não é gostar. Gostar, conforme minha esperança, é quando você deseja a presença, deseja a conversa, deseja o corpo. É isso que eu estou tentando aqui: fazer com que você goste de mim.”
As palavras de Carlos, a entonação sobretudo, diziam de uma vontade de ser querido que nada tinha a ver com sua carência. Tinha força de propósito. Essa constatação rendeu um alívio a Ivo. Sabia dos maus lençóis em que estaria se a demanda de Carlos fosse vinda de uma lacuna.
“Para as pessoas gostarem de conversar com você, de desfrutarem da sua companhia, você tem que ser mais aberto. Você fala muito pouco para quem quer ser simpático, sabia?”
Ivo riu da própria observação. Aliás, fez a observação pensando em rir, em rir para Carlos. Esse foi o primeiro dia em que riram; pois Carlos também riu do conselho que lhe fora dado.
De novo às escuras, os dois mantinham os pensamentos acelerados pelo que acabara de acontecer.
“Eu estou me esforçando para ser simpático, para conquistar sua atenção. É que eu acho a conversa sempre mais difícil, então optei por lhe despertar outro desejo. O do corpo. Fazer você querer meu corpo, desejar meu corpo. Você deseja meu corpo, Ivo?”
Ainda que lhe fosse exigida a resposta, Ivo não responderia a essa pergunta. Mas sentiu que sua recusa em dizer o que quer que fosse não era muito valiosa, já que sua resposta não era aguardada pelo outro.
“Eu fiquei pensando que, amanhã, depois do café da manhã, eu poderia soltá-lo da corrente. E nós poderíamos transar. O que você acha?”

***

No dia seguinte, logo após o último gole no suco de laranja, Carlos retomou a proposta.
“Quer ir para a cama comigo?”
Ivo fez que não. Carlos meneou a cabeça, como se dissesse que havia concordado. No entanto, saiu de seu lugar e foi agachar-se ao lado da cadeira em que Ivo estava sentado. Posou a mão levemente, sem pegada, sobre o pau duro de Ivo.
“Eu tenho certeza de que você nunca transou com outro homem, Ivo. Se eu tivesse dúvidas sobre essa circunstância, você não estaria aqui. Temos ainda dezenove dias juntos, nos quais eu farei todos os movimentos ao meu alcance para ser merecedor de sua afeição. No entanto, seria tolo se eu negasse que um enorme primeiro passo já foi dado nessa direção. Eu posso senti-lo aqui, no seu pau.”
Nesse momento, Carlos segurou-o com firmeza.
“Vem comigo, Ivo. Olha: eu também estou cheio de tesão!”
Ficou de pé e segurou com a mão cheia o volume dentro do próprio short. O efeito foi negativo, pois Ivo apenas levou as mãos ao rosto e escondeu-se.
Carlos pensou que deveria desenvolver melhor a habilidade do diálogo.

***

Na noite do mesmo dia em que disse não, ainda que desejasse, Ivo esperou que Carlos saísse do banho para que pedisse, só com os olhos, que a proposta fosse refeita.
“Você quer, não quer?”
Carlos apressou-se em tirar a algema do pulso de Ivo. A brancura da sua pele já estava irritada pelo atrito do metal.
“Desculpa.”
Voltou a guardar a chave no pote de porcelana. Ivo esticou-se na cama, deitado, esperando. Carlos jogou o corpo moreno, ainda pelado e cheiroso do banho, ao lado de sua vítima. Quando tocou o peito de Ivo, este fechou os olhos. Queria sentir.
Carlos fez-lhe pequenos carinhos, e Ivo pensava que aquela mão grande ainda não o havia tocado. Sem contar o soco. E a mão de seu opressor estava longe de completar seus movimentos, quando sentiu a úmida boca de Carlos engolindo-o. Vislumbrou os próximos dias. Quantas vezes seria chupado assim antes que fosse embora?
“Quer me comer?”
O prazer foi interrompido pela proposta de Carlos.
“Vem. Fica aqui, em pé.”
Enquanto ajeitava o preservativo em Ivo, explicava.
“Nunca dispense a segurança. O discurso é chato, mas é sério. Já que eu estou ensinando, devo fazer o serviço completo. O lubrificante não é obrigatório, mas é de bom tom quando se está metendo, e de bom senso quando se está sendo metido. Quer pôr na mão?”
Carlos colocou um pouco do lubrificante nas mãos de Ivo e virou-se de costas, debruçado sobre a cama, e pediu que o outro lhe passasse o óleo perfumado.
“Você gosta mesmo disso, não é?”
Enquanto lhe untava o ânus, Ivo olhava para o rosto de Carlos, que estava solto como nunca estivera, era outro, outro homem.
“E quem não gosta? Agora, vai. Me come. Devagar. Você tem que ir devagar, porque dói um pouco na hora de entrar, mesmo com o lubrificante.”
Ivo sentia o sangue pulsando no seu pau e no seu rosto. Tudo quente.
“Isso, devagar, isso. Devagar.”
Um gemido longo, arranhado. Os músculos das costas todos contraídos e, depois, relaxados. Ivo não sabia se lhe agarrava as carnes da bunda ou a fina cintura. Em pouco tempo, estava alucinado, feroz, metendo com toda a força que podia, tentando enfiar seu pau no mais profundo que alcançava. Carlos não reclamou da brutalidade, tentava ser compreensivo com a explosão de Ivo.
“Espera, tira um pouco.”
Trocou de posição, deitado, para que ficassem de frente um para o outro. Parte do espetáculo era poder olhar o prazer no rosto de seu prisioneiro.
“Vem.”
Ivo avançou. Metendo, suando. O ritmo era o mais acelerado que seu coração permitia, sentia os músculos fraquejando com seu movimento insistente, até que veio aquela sensação, que é tão boa quanto o gozo: o anúncio. Em seguida, gemeu, tremeu, gemeu, soltou-se sobre o corpo grande e molhado de Carlos, ainda cheiroso, que também gemia, e sorria.

***

O restante dos dias no cativeiro estão relatados, um a um, no diário de Carlos.
Ivo, no entanto, recontou em alta voz, para ouvintes distintos, em épocas diferentes de sua vida, como veio a se apaixonar pelo homem que o sequestrara na juventude. Para saciar a lascívia dos mais curiosos, contava os detalhes do corpo de Carlos, as coxas duras, a bunda redonda sendo mordida, coberta de hematomas ao final do mês. O peito grande, os braços grandes, as mãos. Revivia a sensação de ser penetrado em todos os ângulos, a dor virando delícia. E os beijos e as línguas: na cama, na cozinha, no chuveiro, nos livros, do lado de fora. Explicava a Síndrome de Estocolmo, muito mais detalhadamente do que Carlos havia feito, com ricos casos exemplificativos.
Não voltaram a ser ver depois do dia 23 de abril daquele ano.
Ivo não mantinha um diário. Mas se escrevesse, não seria sobre os dias no ardiloso cárcere de luxúria tão bem arquitetado por outro homem.
Escreveria sobre a liberdade.





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