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O QUE EU SEI SOBRE O MISTÉRIO


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o que eu sei sobre o mistério


O que eu sei sobre o mistério é que ele faz melhor residência nos homens. Nas mulheres o mistério é estranho, pouco à vontade. Quando o mistério acha aconchego nas mulheres, dá a elas a potência da masculinidade. Tornam-se desejáveis.

O mistério dos homens é o que faz contato entre eles. Estamos sempre tentando saber o que se passa com o outro, cruzar o olhar nublado que todos ganhamos com a chegada da virilidade. Amamos o mistério do outro, tememos decifrá-lo.

Para os homens que deixam escapar seu mistério, apenas pesares.





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BRIGA

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BRIGA





— O que você está fazendo aqui em cima?

— Nada, só dando um tempo...

— Só dando um tempo...?

— O quê?

— Nada.

— Fala o que você quer falar, Lúcia!

— Eu não tenho nada para falar... mas sei que você não está aqui só pra dar um tempo, eu conheço você. O que aconteceu?

— Eu briguei com o Ramón.

— Brigou com o Ramón?!

— É, briguei com o Ramón... que foi?

— “Que foi” é que você já notou como essas brigas com seu irmão têm se repetido?

— Não é culpa minha, ele que começa...

— Duda, eu não sou sua mãe, sou sua mulher. Não faz a mínima diferença para mim quem começou o quê. Eu só fico triste de ver você assim, chateado por conta desses desentendimentos com o Ramón... Não sei o que aconteceu! Vocês sempre se deram tão bem!

— Mas era diferente!

— O que era diferente, Duda?

— Tudo! Não tudo, mas a gente morava junto, saía junto e a gente sabia o que acontecia na vida um do outro. Agora o Ramón está cada vez mais estranho e eu sinto saudade do meu irmão, de como ele era. Entende?

— Entendo. Um pouco.

— Eu vou descer de novo. Mas vou ficar longe dele para não dar mais tumulto.

— Por que vocês brigaram?

— Nada.

— Duda...

— Porque o Ramón não ouve o que a gente fala! Quando eu estou discutindo com ele, ele simplesmente ignora meus argumentos porque ele sabe que eu estou certo! E fica fazendo piadinha ao invés de discutir como homem!

— Tira uma dúvida minha, Duda: sobre o que vocês estavam discutindo?

— Nós estávamos falando de outra coisa, nem lembro o que era, e aí o assunto foi mudando, e já estava lá o Ramón falando do São Paulo e que as novas contratações...

— Pelo amor de Deus, Duda! Deixa de ser ridículo!

— Não fui eu que entrei nesse assunto...

— Futebol, de novo?

— Futebol de novo sim!

— Há quanto tempo você e o Ramón são irmãos?

— Lúcia, a questão...

— Mais de 30 anos. E há quanto tempo ele torce pelo Palmeiras e você para o São Paulo?

— Eu sempre fui são-paulino!

— E ele sempre foi palmeirense, e vocês viviam tirando sarro um do outro, provocando, mas não tinha briga de verdade, não era essa xingação que agora vocês arrumam! Mas você pode anotar que não tem erro, é vocês começarem com essa história de Palmeiras e São Paulo que dá confusão! Só quem está perto é que vê como é patético!

— Você não entende!

— É claro que não entendo! Isso é absurdo!

— Você não entende...

— Eu vou descer, Duda. Acho melhor você dar um tempo aqui em cima mesmo!

— Não fala pro Ramón que eu estou aqui!

— Não vou me meter, Duda! Isso é entre você e seu irmão!

— Então pronto!

— Só acho que você deveria ser o irmão mais velho de verdade e mostrar um pouco de maturidade, porque está ridículo para todo mundo ficar assistindo, toda vez que a família se reúne, esse bate-boca que não tem nada a ver com futebol!

— Nada a ver?

— Nunca teve!

— Você não sabe o que está dizendo!

— Eu sei exatamente o que estou dizendo! E você também sabe o que eu estou dizendo, só não quer ouvir.

— Não quero mesmo! Pode descer! Aproveita e faz um aconselhamento psicológico com o Ramón, já que você sabe tudo sobre tudo, sempre! A conversa vai durar até o fim do mundo com dois sabichões! Fala para ele também...

— Duda, para! Eu não vou entrar nessa. Essa briga não é comigo. E também não é com o Ramón.

— Você não entende...

— Vê se não fica aqui a festa inteira... não vale a pena. Esfria um pouco a cabeça e depois você desce, ok? Ok... ? Duda?

— Ok.

— E nada de falar em futebol. Evita esse assunto.

— Ok. Nada de falar em futebol...





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BABEL

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BABEL


Entre os milhares de desesperados — em fugas, missões e vontades — que buscam Paris durante a primavera (a da vida!), estão Juan e Catalin. 

Juan aqui está para desencravar-se do trabalho, do cansaço do trabalho, do futuro do trabalho. Nascido em Concepción, Paraguay, tem 26 anos, há quatro vive e trabalha em Asunción, a capital. Seu tempo por aqui é sempre curto, contudo insiste em cruzar o oceano para o refrigério que lhe garante um pouco de sanidade.

Catalin sempre quis conhecer a França e, por essa ideia sem fundamento, fez árduo esforço para custear uma semana longe de Tatabánya. Completou 22 anos no último verão e agora caminha às margens do Seine, pensando na Hungria, nas coisas húngaras, em como o mundo se parece com ele, húngaro.

Naquele dia, Paris atapetava-se com milhares de folhas secas, e Juan e Catalin se encantaram com o cenário, e fecharam os olhos para enxergarem seu deleite, e, ao retornarem para o outono parisiense, viram-se.

Os três dias que viveram (viveram!) juntos foram mediados por beijos, afagos, sorrisos e gemidos. Os dedos apontavam, maravilhados; os olhares se prendiam na mesma sintonia. As palavras estavam lá, mas não havia como cruzar uma fronteira tão larga em tão pouco tempo, e, se tentassem, suspeitaram, seriam pegos pelo fracasso.

Ao se despedirem (não!), Catalin segurou Juan pelas mãos e derramou sobre o paraguaio um apaixonado discurso húngaro. Juan não sabia das palavras, mas dizia a mesma coisa dentro de si. Os lábios se tocaram levemente, pois a força estava no abraço, e já era hora de se separarem. Juan guardou suas palavras para o final. Breves foram, como ele o era.

Algumas semana depois, no inverno de Tatabánya, Catalin pensava consigo nas palavras que ouvira de Juan. Não sabia nenhuma outra língua que não a sua, todavia não tinha dúvidas sobre a declaração de amor: “Eu amo você”, o outro lhe dissera.

Eu já conheci mais línguas e cidades do que meu vazio me permite e sei que os mudos, os estranhos e os forasteiros sabem se comunicar com eloquência. O significado está nos olhos, nos ombros, na garganta, no peso. Catalin entendera perfeitamente o sentimento de Juan, que não tentara se traduzir, mas se fizera entender.

Os olhos desesperados — culpa da separação — diziam para os corações: o amor.

No entanto, eu estou atento — bem agora — à conversa desses dois afortunados que se querem com tamanha esperança. O aeroporto se movimenta ao redor dos amantes sem lhes dar atenção. Outras línguas falam sobre outras coisas. Eu, que falo todas, não sei se me levanto e digo a Juan que as tantas palavras de Catalin podem ser as mais arrebatadoras que já ouvi em minha vida. Agora mesmo, tenho vontade de transformar espanhol e húngaro em poesia, e revelar os desejos mais íntimos de homens que não conheço. Penso em dizer a Catalin que Juan, em suas poucas palavras, lhe dissera algo além (ou aquém...) do amor.

Antes de soltar-lhe a mão, travou-se em seus olhos, molhou os lábios, contraiu involuntariamente o rosto. Em seguida, afrouxou o corpo todo, para dizer:

“Preciso de você.”





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