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ARRANJO

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ARRANJO


O que mais me excita nessa história é o fato de ela ser real. Na minha cidade, Juiz de Fora, litoral de Minas Gerais, todos a conhecem, mas poucos sabem dos detalhes que eu agora vou contar. Esses pormenores me foram confidenciados pelo próprio Vinícius, meu colega de trabalho há mais de cinco anos.

O Vinícius era muito tímido, quer dizer, ainda é muito tímido. Até hoje ele se admira com a ousadia que lhe rendeu essa boa história. Pois o Vinícius era um apaixonado nato. Quer dizer, é um apaixonado nato. Ele estava sempre de olho em alguém, de prontidão para viver seu grande amor. Mas sua vontade de outro homem não saía nunca de suas fantasias, pois não se arriscava a trocar uma palavra sequer com os homens por quem se apaixonava.

O que mais me diverte nessa história é que a inércia solitária do Vinícius foi interrompida por uma dica de horóscopo lida em voz alta por uma outra colega de trabalho. Dizia: “Virgem: você é um ser único e, por isso mesmo, o único responsável por sua felicidade. Seja corajoso e transforme seus sonhos em realidade. Palavra-chave: estratégia. Para ser alguém melhor: intuição. Dia favorável: quarta-feira.”

O Vinícius andava apaixonado por dois homens. Um deles era o Rômulo, ator de uma companhia de teatro amador da cidade, alvo também da cobiça de outros tantos. O Rômulo era alto, forte, taurino, traços napolitanos, cara de troglodita, mas um dos mais sensíveis homens para entender a humanidade, habilidade que o transformou em um grande ator. Era também professor de filosofia na universidade, o que aumentava sua popularidade e seu fã-clube. O outro era o Saulo, que era quase seu vizinho, pois alugara a casa em frente à do Vinícius para transformá-la em seu consultório odontológico. Tinham em comum a circunspeção, pois sempre que se cruzavam trocavam apenas breves sorrisos e olhares cordiais. O Saulo era pequeno, moreno, geminiano, e tinha olhos pretos que adiantavam suas maneiras gentis. O Vinícius fala que não acredita, nem nunca acreditou em horóscopo, mas que achou que os conselhos da revista poderiam lhe ser úteis. Quando eu perguntei a ele o dia em que ele decidiu agir, ele me respondeu: “Foi numa quarta-feira, mas isso não quer dizer nada!”

Todas as manhãs, o Saulo chegava bem cedo, antes da secretária, guardava o carro, voltava até o portão de entrada para apanhar a correspondência e, às vezes, as abria ali mesmo, no gramado em frente à casa. O Vinícius estava perfumado e com sua gravata preferida, e esperou ansiosamente enquanto o Saulo estacionava o carro. Acelerou o passo para que não perdesse a oportunidade.

“Olá, tudo bem?”
“Oi, tudo bem!”
“Você é o Dr. Saulo, não é?”, perguntou apontando para o letreiro do consultório.
“Sim, sou eu mesmo. Prazer.”, o Saulo estendeu a mão para cumprimentá-lo.
“Eu sou Vinícius, seu vizinho.”
“Eu sei, quer dizer, eu sempre o vejo por aqui. É a casa amarela, certo?”
“Isso.”
“Ok. Prazer em conhecê-lo, Vinícius.”
“O prazer é meu.”

O Vinícius me falou que ele nem acreditou quando, para impedir que a conversa acabasse ali, ele disse o que disse.

“Eu olho muito pra você!”
“Como!?”
“Eu quero dizer, eu sempre te vejo chegar e sair.”

O Saulo não disse nada.

“Sabe o que é? É que eu acho você um homem muito bonito e me sinto muito atraído por você. Eu sei que eu não te conheço, mas sabe quando você simplesmente confia nos seus instintos? Então, eu me interessei por você, mesmo assim, sem saber muito. Foi mais porque você é bonito mesmo, e está sempre tão bem vestido... Enfim, eu queria me apresentar, e bem... se você me der seu telefone eu posso te ligar e te convidar para sair. O que você acha?”

O Vinícius disse que quis se enfiar em um buraco depois de ter falado tão mal articuladamente o discurso que havia ensaiado com antecedência.

“Por que nós não fazemos o seguinte? O meu telefone é aquele que está no letreiro do consultório. Como você dever ter percebido, é aqui que eu passo a maior parte do meu dia. Mas também seria bom se você me desse o seu telefone, pra eu poder ligar pra você, acho melhor.”

“Ok.”
“Ok, então.”

O Saulo anotou o telefone do Vinícius na agenda do celular e entrou para o consultório.

O Vinícius ficou achando que tinha dado tudo errado e entendeu que aquela de “deixa que eu te ligo” era uma outra maneira de dizer “não liga pra mim”. Além disso, o Vinícius me disse que ficou pensando que, apesar da receptividade do Saulo, teve dúvidas se ele era mesmo gay, se estava levando aquilo na brincadeira, ou se só havia pedido o telefone dele porque não soube o que fazer quando foi pego de surpresa pelo vizinho maluco.

Na mesma quarta-feira, o Rômulo estreava em uma comédia da qual ele também era o diretor. O Vinícius pensou em desistir de seus planos depois do fiasco de sua conversa com o Saulo, mas como não tinha nada a perder, continuou firme no propósito. Depois da peça, esperou que os conhecidos e amigos da companhia cumprimentassem todo o elenco e, só então, se aproximou.

“Parabéns, o trabalho de vocês é impressionante!”
“Obrigado. Obrigado pela presença.” Era a resposta padrão do Rômulo para os anônimos.
“Eu nunca tinha visto você em uma comédia! Você foi ótimo!”
“Obrigado. Foi ótimo pra mim também fazer um papel diferente do que eu estou acostumado.”
“Rômulo, me perdoe a indiscrição, mas você tem namorada? Ou namorado?”
“Não.”, o Rômulo deixou transparecer seu embaraço.
“Eu pensei em convidar você para sair comigo qualquer dia desses, o que você acha?”

O Rômulo deu um sorriso, meio riso, um pouco sem graça, mas respondeu.

“Acho bom! Hoje eu vou sair para comemorar com o pessoal do grupo, mas amanhã, depois da peça, eu estou livre. É bom pra você?”
“É ótimo! É perfeito!”
“Até amanhã então!”
“Até amanhã! Meu nome é Vinícius.”
“Prazer, Vinícius!”

O que mais me intriga nessa história é que, quando o Vinícius a repete, ele utiliza exatamente as mesmas palavras para reproduzir os diálogos e descreve as cenas e os cenários do mesmo modo. Por exemplo, repete sempre o clichê “eu estava flutuando”, bem apropriado para descrever sua volta para casa. Mal conseguiu dormir de tanta agitação.

No dia seguinte, quinta-feira, após o espetáculo, o Vinícius e o Rômulo tomaram vinho rosé e conversaram no camarim, e, na coxia do teatro vazio, viveram sua primeira noite de amor; já era amor.

Na sexta-feira, dia seguinte, o Saulo bateu na porta da casa do Vinícius por volta das seis da tarde e, assim como o próprio Vinícius havia feito, venceu a timidez para confessar que também reparava no vizinho, e que o desejava, agora ainda mais. O Vinícius levou-o para o quarto, amou-o, também era merecedor, e dormiram até que o celular os acordasse, por volta da meia-noite, com a ligação do Rômulo

O que mais me fascina nessa história é a sorte, a falta de sorte, e a sorte ao mesmo tempo. Quando o Vinícius fantasiava suas transas e conquistas, nunca imaginava as coisas se complicando. Ele achava tão improvável a ideia de abordar e seduzir um homem por quem estava apaixonado, que não lhe passou pela cabeça o que faria se um deles correspondesse ao seu avanço, quanto mais dois deles. “Não foi uma estratégia, ou uma coisa que eu pensei muito claramente. Foi mais uma intuição.”

Pelo telefone, ele deu o endereço dele para o Rômulo, que em quinze minutos chegou à sua casa, surpreendendo-se ao ver que ele não estava sozinho.

Na sala, o Vinícius abriu o jogo.

“Primeiro de tudo eu quero falar que, até quarta-feira, eu vivia a mais monótona das vidas. Cada hora eu me apaixonava por um homem diferente, mesmo sem conhecê-lo, e gastava meu tempo fantasiando uma felicidade qualquer, ou uma foda bem sacana. Foi então que eu resolvi tomar uma atitude e tentar atrair os homens que realmente mexiam comigo. Você, Saulo, é um desses homens. E você, Rômulo, também. Na quarta-feira, eu decidi chamar o Saulo pra sair, mas entendi que ele não estava interessado. De noite, depois da peça, tentei minha sorte com o Rômulo, e deu certo. Eu não sabia que você iria aparecer aqui na minha casa. Nem que você iria me ligar bem na hora que ele estivesse aqui.”

Nem o Saulo, nem o Rômulo fizeram qualquer comentário, mas ficaram visivelmente hesitantes

“Eu não quero parecer egoísta, porque eu não sou, mas eu sonhei tanto com vocês dois, que não queria desistir agora. Nem de você, nem de você. Então eu tive essa ideia, de repente: e se eu namorasse os dois? Ou melhor: se nós três nos namorássemos? Eu sei que parece loucura, mas eu tenho certeza que vocês vão gostar um do outro, tenho certeza! Todo mundo sabe que ninguém tem tesão em um cara só, e às vezes essa pode ser uma maneira de termos uma relação mais legal, entendem? Com mais satisfação! Bem, isso também não é importante agora, o que eu queria dizer, o que eu quero mesmo é conhecer vocês melhor, e eu não quero abrir mão do que pode acontecer daqui pra frente.”

Não foi só isso que o Vinícius falou naquela noite, falou mais coisas, coisas para persuadi-los. O Rômulo e o Saulo também fizeram suas considerações. No domingo, almoçaram juntos, os três, e decidiram levar adiante a ideia do Vinícius.

O que eu mais gosto de contar sobre essa história é o que vem a partir de agora.

Oito meses depois de decidirem que iriam namorar a três, o Vinícius, o Rômulo e o Saulo mudaram-se para um apartamento de quatro quartos, com bastante espaço para abrigar a família toda. Fizeram uma espécie de open house, e os amigos ajudaram com presentes para decorar e aparelhar o novo lar. Houve quem achasse estranho no começo, mas os três se tornaram tão amigos e tão amantes que era muito natural que quisessem morar juntos. Só vendo os três juntos para entender.

O Vinícius me explicou, isso nem todo mundo sabe, que eles criaram um código bem simples para não se desentenderem quanto ao sexo. Na maioria das vezes, quando estavam os três juntos, transavam juntos, a não ser que alguém não estivesse afim, ou que alguém manifestasse a clara vontade de estar com apenas um dos parceiros. Para que chegassem nesse nível de entendimento foi necessário que fizessem um pacto anti-vaidade e anti-dor-de-cotovelo. Quando estavam a dois, havia duas maneiras de dizer ao que não estava presente que ele seria bem-vindo na transa quando chegasse: deixar a porta do quarto aberta, ou transar no quarto dele. Essa segunda opção era quase um imperativo, que todos se alegravam em corresponder. Caso a porta do quarto estivesse fechada, nada de se intrometer no que já estivesse rolando.

O que mais me acrescenta nessa história é que o Vinícius me explicava que, apesar das regras, a dinâmica tinha seus contratempos, mal-entendidos e situações inesperadas. Acontecia de alguém desistir da transa no meio, ou de pedir “por favor” pra não ficar de fora porque estava muito excitado, ou de fechar a porta do quarto alheio por causa do barulho, ou de transferir a responsabilidade para o outro namorado: “Espera o Saulo chegar, tô cansado hoje.” Contou-me também sobre as dificuldades de se discutir um relacionamento a três, sobre argumentar contra duas opiniões ao mesmo tempo, sobre como a sina de ser um e se sentir só é sempre a mesma coisa. O Vinícius sempre matava minha curiosidade de saber sobre como é ter o dobro de sogros, sobre as comemorações dos aniversários, sobre o sexo a três. Ele gostava de me explicar como funcionava esse casamento tão sólido, de como estar em três parecia mais equilibrado e óbvio, como é um banco de três pernas.

Eu, como convivi muitos anos com eles, mais com o Vinícius, passei a acreditar naquela formação: três para amar, três para transar, três para dividir as contas, três para os momentos de aflição, três para imaginar o futuro, três para tudo.

O que mais me embaraça nessa história é que ela não acaba no três. Há uns dois anos atrás, o Vinícius me contou que ele, o Rômulo e o Saulo se apaixonaram por mais um homem. O felizardo era o dono da livraria da qual eram clientes, Tiago, canceriano. O Tiago é um dos homens mais bonitos e desejáveis que eu já conheci. Começaram a chamá-lo para algumas transas, para algumas idas ao cinema, para conversar. Todos concordaram que deveriam fazer o convite e, desde então, o quarto quarto é ocupado pelo Tiago, que levou um bom tempo para se adaptar aos três homens a quem aprendeu a amar.

Naquele ano, o Vinícius vivia me contando histórias hilárias, e outras meio melindrosas, de como os três fizeram para incorporar mais um no relacionamento, porém, eu só conseguia ouvir a mesma mensagem. Apesar de todas as curvas da narrativa do Vinícius, eu só era capaz de pensar em como eram habilidosos, os quatro, para levar aquela experiência adiante com um saldo tão positivo, com tanta satisfação para todos. Eu pensava tanto sobre aquilo que, aos poucos, fui me apaixonando por ele, o Vinícius, mas também pelo Rômulo, pelo Saulo e pelo Tiago. Às vezes, eu ainda lamento por não haver um quinto quarto no apartamento.

Hoje meu horóscopo diz assim: “Leão: procure abrigo entre aqueles que você admira e não deixe de conversar com eles sobre os seus sentimentos mais íntimos. Evite ficar sozinho ou pensando sobre a solidão. Palavra-chave: adicionar. Para ser alguém melhor: coragem. Dia favorável: segunda-feira.”

O que mais me convida a essa história é que ela ainda não acabou.

Hoje é segunda-feira.





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KARMA

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KARMA

“You know the kind of guy who does nothing but bad things, and then wonders why his life sucks? Well... that was me. Every time something good happened to me, something bad was always waiting around the corner. Karma. That's when I realized I had to change. So, I made a list of everything bad I've ever done and, one by one I'm going to make up for all my mistakes. I'm just trying to be a better person. My name is Earl." *


My name is Earl era um de meus sitcoms americanos preferidos na juventude. O argumento: o protagonista, Earl, era um sujeito mau caráter; ladrava, enganava, trapaceava. Até o dia em que ganha 100 mil dólares na loteria. Porém, enquanto comemora sua sorte, é atropelado e perde o bilhete premiado. No hospital, assistindo TV, ouve uma breve explicação sobre o Karma. “Se você faz coisa boas, as coisas boas voltam pra você.” Earl decide então fazer uma lista de todas as suas más ações e promete a si mesmo que vai compensar todos aqueles a quem havia prejudicado, em uma tentativa de pagar o seu débito com o Cosmos. Logo em sua primeira boa ação, acha novamente o bilhete da loteria que havia perdido, o que o faz ratificar sua crença na doutrina do Karma. A partir desse mote, cada novo episódio reconta uma das tentativas de Earl de voltar às graças do Universo. 

Eu acredito no Karma. 

Diferentemente de Earl, eu sempre fui um bom ser humano. Fui uma criança obediente, ordeira e amorosa. Na escola, ajudava os colegas com as lições de casa e, caso fosse necessário, em conflitos e situações delicadas. Nunca colei, nem nas provas mais difíceis. Não tolerava injustiças, estava sempre pronto a interceder pelos oprimidos e discriminados. Sempre dei conta de preencher todos os pré-requisitos do politicamente correto e, mais além, de fazer até mesmo o politicamente correto parecer limitado, agindo sempre graciosamente para com o próximo e responsavelmente para com a coletividade. Admirado pelos amigos — e por desconhecidos — na faculdade, no emprego, na igreja, na vizinhança, no seio da família. Um homem bom, eu fui. 

Eu nunca ouvira falar em Karma. 

Quando conheci Dragomir, tive pena dele, mas logo me censurei. Por que deveria sentir compaixão por um gordo? Era eu mais bem aventurado do que ele, apenas por ter um corpo saudável e desejável? Embora cresse nessa minha própria argumentação contra o preconceito que me guiava o sentimento, a convivência com Dragomir revelou-me sua insatisfação com o próprio peso, com seu corpo, consigo mesmo. Dragomir era o homem mais gordo que eu havia conhecido pessoalmente. Lamentava-se por saber que muitos o consideravam asqueroso, e outros, ainda, o julgavam fraco, por não saber se controlar. Temia nunca ser amado, nunca encontrar um homem que o desejasse. Temia morrer sem ter gozado de uma vida sexual satisfatória. Descobri que Dragomir mantinha um blog, com um perfil fake, no qual narrava aventuras sexuais em viagens pela Europa. Todas elas falsas, mas repletas de veracidade, de vivacidade. 

Depois disso, eu, bom moço, não pude conviver com a ideia de alguém tão próximo de mim ser privado de prazeres primários, como o de gozar em dupla. Decidi que comeria Dragomir, que amaria Dragomir. 

Ele não creu, no princípio. Perguntava-se e perguntava-me por que um dos rapazes mais desejados da Universidade de Sofia queria ficar com ele, o gordo. Eu não sei como ele respondia a si mesmo, mas eu fazia questão de dizer: “Por que eu já amo você.” Com o tempo, ele creu. Apaixonou-se por mim, e isso era fácil. Na primeira vez em que fizemos sexo, ele teve vergonha de se despir; eu pedi: “Tira a roupa. Eu quero ver você. Quero comer você.” 

Logo, o campus comentava nossa relação. Dragomir, o gordo, e Lucien, o bom partido. “Como pode?”, reverberavam a primeira questão de Dragomir. 

Quando completamos dois anos de namoro, fomos passar uma semana em Turim. Por causa de uma lesão, do frio e de sua diabetes, Dragomir quase teve de amputar a perna direita, complicações de um corpo obeso. Ficamos 10 dias no hospital italiano antes de voltarmos para a Bulgária. Um mês depois, Dragomir se inscreveu em um programa do governo que buscava voluntários para uma cirurgia de redução estomacal, para tratamento de obesidade mórbida. 

Após a operação, Dragomir perdeu 110kg. Ainda submeteu-se a três cirurgias plásticas, para extração do excesso de pele que restara após o emagrecimento. Passou a fazer musculação, a alimentar-se de forma regrada e tomava sol, nu. Dois anos após a cirurgia, o meu namorado Dragomir chamava atenção quando adentrava um ambiente. Alto, belo, forte, confiante. 

O que é o Karma? 

Dragomir brincava comigo: “Eu fui sua aquisição mais lucrativa, Lucien! É só comparar o produto que você pegou na prateleira com o que você tem agora em casa! Eu sei que o investimento foi custoso, mas acho que o retorno foi satisfatório, não foi?”. Eu nunca respondi a essa pergunta. Primeiro, porque tinha medo que de dizer que sim, confirmando a minha óbvia preferência por lindos homens em detrimento dos gordos, dos feios, dos esquisitos; enjeitados, se assim permitirem. Seria a coroação de meu coração preconceituoso. Segundo, porque tinha medo de dizer que sim, por causa do Karma, porque o delicioso Dragomir tomaria o lugar de pagamento do Cosmos por minha vida idônea, caridosa, justa e fraterna.

“Você já ouviu falar em Karma?”, perguntei a Dragomir.

“Vagamente. O que é mesmo?” 

“É uma doutrina budista, que diz que somos recompensados pelo Universo, por uma inteligência cósmica superior. Se fazemos o bem, o bem nos virá. Do contrário, é o mal que nos resta.”

“Você acredita nisso?”, Dragomir era cético. 

“Prefiro não acreditar.”, encerrei o assunto. 

Recentemente, sou assombrado pela balança do Karma. Tornei-me incapaz de calcular o peso do bem e o peso do mal. Meço tudo, tento medir: palavras, atos, passado; e pensamentos; se assim permitirem. Valorações antigas se rebelam, intimamente, e falho em ter certeza sobre minhas intenções. Sinto que meu saldo negativo cresce, obrigando o Universo a cumprir friamente uma cruel vingança contra mim. 

Eu acredito no Karma, que me presenteou com Dragomir. 

Estou apenas esperando o próximo movimento.





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* Você sabe aquele tipo de cara que só faz cagada e depois se pergunta porque a vida é uma merda? Bem... esse era eu. Toda vez que alguma coisa boa acontecia comigo, alguma coisa ruim estava me esperando na próxima esquina. Karma. Foi quando eu percebi que eu precisava mudar. Então criei uma lista com todas as coisas ruins que eu já havia feito e agora vou tentar compensar os meus erros, um a um. Estou apenas tentando ser uma pessoa melhor. Meu nome é Earl. 
(Texto de Abertura da Série My Name is Earl, NBC, 2005-2009).

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