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LÁBIOS

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LÁBIOS



Depois disso, ele me perguntou.

— Você já provou do sabor que escapa dos lábios de um homem?
— Sim. — respondi.
— Não, não provou!
— Claro que provei!
— Não. Não provou.

“Quem é ele para me dizer ou não das minhas provas?”

— Claro que provei.

Ele deu a volta e sentou-se ao meu lado. Sorriu antes de dizer isso.

— Eu não estou perguntando se você já beijou um homem.
— Eu sei.
— Sabe, é?
— Sei. E eu já provei do sabor dos lábios de um homem.

Ele não acreditou em mim, nem considerou acreditar. Hesitou antes de dizer isso.

— Não, não provou. Eu poderia dizer que sim, mas privaria você de saber uma verdade.

“Mas é muito arrogante mesmo!”

— Que verdade?
— Que você ainda não sabe o que é provar do sabor que escapa dos lábios de um homem. Você não sabe. Não sabe mesmo.

“Como ele pode ter tanta certeza?”

— E você sabe? — retruquei.
— Eu sei, claro! Sei bem. Já provei muitos lábios, muitos sabores, muitos homens, muitas coisas que escapam.

Era verdade, ele já havia provado. Esperou antes de dizer isso.

— Você gostaria de provar do sabor que escapa dos lábios de um homem?

“Eu quero, eu quero, eu quero provar!”

— Sim, gostaria.

O homem me provocava com eficiência. Sabia dizer o que eu não queria ouvir e, nas mesmas palavras, o que eu queria ouvir, talvez essa fosse a verdade! Falava baixo e limitava-se a curtos gestos, movia-se devagar. Não fazia esforço para me interrogar, nem para me entregar as respostas. Agitava-me, mas ele mesmo parecia quieto, por dentro, quietíssimo, o dono de todo o sossego: quase a paz. Parou de falar, de se movimentar; permaneceu estático por algum tempo, atenção fixa e segura em meus lábios. Isso era o começo.

— Quer mesmo provar?
— Quero! Quero muito! — pedi.
— Então boa sorte! Não é uma prova fácil de se obter, meu caro... Boa sorte!

Ele me disse a verdade, sobre a prova. Levantou-se antes de dizer isso.

— Você já deixou o seu próprio gosto escapar por entre os lábios, para que fosse sorvido pelo desejo de outro homem?

“Que sabor? Que lábios? Que homens?”








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TEMPO

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TEMPO


Não tomarei seu tempo. A história de Francisco pode ser resumida.

No lugar em que Francisco nasceu, balé era coisa de mulher, e futebol era coisa de homem, e menino que gostava de dançar era veado, e ser veado era vergonhoso.

Quando criança, Francisco queria ser bailarino, mas não pôde levar a vontade adiante. Os pais não aceitariam um filho veado, ou aceitariam? Francisco nunca saberia, pois não contou aos pais sobre seu desejo por pliés. Aliás, falar sobre desejos era outra coisa proibida na terra de Francisco.

Deveria ter dito que amava o balé. Se o chamassem de veado, justamente o fariam, porque Francisco era veado. No entanto Francisco cedo percebeu que, por lá, ser chamado de veado era mais grave do que ser um.

Francisco desistiu de ser bailarino, mas não de ser veado, e partiu de sua cidade natal aos 28 anos. Francisco virou garçom e dançava apenas em bailes de carnaval. Teve tendinite no braço direito, febre reumática e operou os quadris. Aos 58 anos, leu uma notícia no jornal sobre a Companhia de Dança Sara Lúcia Rios, que formava bailarinos na terceira idade. Mudou-se para o Rio de Janeiro e inscreveu-se nas aulas para iniciantes. Levava jeito para o balé, talvez por ser veado. Alma que dança. No final daquele mesmo ano, Francisco, junto com colegas da turma da terceira idade, participou do recital da companhia. Um espetáculo! Desde então, depois do palco, do figurino, das luzes e da dança, sobretudo da dança, Francisco é bailarino.

Conto-lhe essa história para relembrar um ditado que aparece em todas as culturas, mas que funciona melhor acompanhado de um exemplo factual. É uma mentira, como muitos provérbios, mas pode inspirá-lo, como Francisco a mim o fez.

“Nunca é tarde demais”, diz a sabedoria.





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PARIS

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PARIS 


A primeira vez que vi Greg pensei que ele era novo demais. Não para mim, pois temos a mesma idade, diferença de dias. Mas para o lugar que ocupava: em meio a uma mesa de catedráticos idosos e desanimados, ele destoava com sua energia juvenil. Tinha 26 anos e sua própria cadeira no departamento de história da Universidade de Columbia, Nova Iorque.

Depois da primeira visão, tudo foi caminhando para essa paixão que ainda vivo. Li seus livros, fui seu aluno, seu admirador, sua dúvida, seu amante, seu parceiro. Mas aquela primeira visão, que poderia ter se perdido entre tantas boas lembranças, apenas ganhou força. Hoje, sei que é porque continuo vendo o mesmo homem que dividia a mesa com os catedráticos: o homem com sede de saber.

Moramos juntos durante cinco anos, ou menos. Uma das cenas mais repetidas em minhas retinas era, ao chegar em casa, deparar-me com Greg dormindo no sofá, cercado de livros. Por vezes, dormia com o livro nas mãos, ou como travesseiro. Já houve vez de tentar fazer o livro de cobertor. Quando acordava, reclamava de vê-los todos amassados, esparramados, babados.

Mas, na maioria das vezes, Greg abraçava os livros e dormia, bem agarradinho, livro junto ao peito. Adormecido, era ainda mais bonito, pois o seu saber parecia mais leve, parecia mais perfeito. Era como se tudo que estivesse guardado dentro de si estivesse estático, organizado, indubitável.

Da última vez, quando entrei, achei que minha agitação pudesse despertá-lo, mas ele estava em sono profundo. Queria acordá-lo, dizer a ele que eu havia conseguido. Mas esperei. Preparei o jantar, abri o vinho, fui para o banho. Quando saí, flagrei-o espiando a comida no forno. Beijei-o. Disse a ele que eu havia conseguido, e ele urrou de alegria, dançou comigo — sem música, na cozinha.

Foi só então que eu notei que havia algo escrito em seu peito. Greg dormira sobre um livro cuja capa exibia enormes letras em alto relevo. Com o peso de seu corpo, Greg se fizera marcar com as letras, as quais, mesmo invertidas, eu li: PARIS!

— Paris?

Ele buscou o livro e me mostrou. Era um guia fotográfico da cidade. Greg passaria oito dias em Paris, em um congresso. Estava animado, tanto que comprara o livro, ainda que pouca informação tivesse. Quis ir com ele, mas não podia. Não agora, que eu havia conseguido. Então ele foi para Paris. E não voltou.

Por isso eu nunca fui a Paris: medo de mais tristeza. E à mínima menção, imagem ou alusão a qualquer coisa que me faça lembrá-la, estremeço. Não posso ouvir de Louvre, Rodin ou Eiffel. Sou avesso a menu’s, à la mode’s e fiancé’s. Mas o pior não foi isso. Hoje, a cada livro que abro, penso em Greg, em seu peito, em sua inteligência. Lembro-me de tudo, até um pouco mais. Penso em me mudar de Nova Iorque, para esquecê-lo. Mas não adiantaria; há sempre livros... e Paris.





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