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ELEITO

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ELEITO



— Por que tem que ser eu?
— Tem que ser alguém.
— E por que eu?
— Porque você foi escolhido, só por isso.
— E se fosse você então, você iria aceitar, numa boa?
— Com certeza.
— Ia sim... Duvido!
— Não interessa. Não me escolheram. Escolheram você.
— Escolheram!? Você também escolheu! Quer comer minha bunda, é? Você acha mesmo que eu vou concordar com isso? Que eu vou ficar de quatro, empinar a bunda e deixar vocês me meterem? 
— Não é uma questão de concordar, Régis.
— Então não importa se eu concordo ou não? Se eu disser que não, vocês vão me comer do mesmo jeito? Vão me estuprar? É isso? E você só veio aqui me avisar antes? Ótimo! Que delicado de sua parte! Ótimo! Assim eu não vou me sentir invadido, não é mesmo?

O outro soldado se retirou. Voltou junto com outros dois.

— Ah, que bom que vocês chegaram! Eu estava doido para chegar esse momento! Desculpa, mas eu já devia ter tirado a roupa? Querem que eu dance antes?
— Não falei para vocês? — o primeiro soldado dirigia-se aos outros.
— Régis — começou outro — isto está previsto no nosso treinamento...
— O caralho que está! Que a gente tem que aceitar ser fodido pelos filhos-da-puta que se chamam de colegas?
— Mais ou menos.
— Então por que não treinaram a gente pra isso? Ou você se lembra de alguém te enrabando no treinamento? Se você lembra, foi só com você! Então por que você não vai lá? Seja voluntário! Patriota! Vira a bunda e deixa que eu te como!

Ele fez sinal para os outros. Régis pegou a arma.

— Você está louco? Vira essa merda pra lá!
— Não chega perto de mim!
— Baixa a arma, Régis! Isso é uma ordem!

Régis baixou a arma.

— Nunca mais levanta essa arma na minha direção, ok?
— Desculpa.

Houve um suspiro de alívio, por parte de todos.

— Vamos combinar assim: hoje é você, da próxima vez, é outro.
— Perfeito! Era o que eu queria mesmo: primeiro ser comido, depois comer! Por que não vai você primeiro? Ou melhor, por que você não para com essa veadagem e bate uma punheta? O que aconteceu? A punheta não tá dando conta?... Isso é insano! Não pode ser verdade que você ache que me comer vai ser melhor que bater uma!
— É diferente.
— Você é veado! Os três são veados!
— Diga o que quiser, Régis.

Os três o encaravam. Ele se assentou. Parecia pensar no assunto.

— Quem vai ser o próximo?
— Não importa!
— Claro que importa! Quem vai ser o próximo?

Ninguém respondeu.

— Se eu vou ser o primeiro, eu acho que eu deveria ter o direito de escolher quem vai ser o segundo.
— Régis...
— Eu topo! Numa boa! Se você concordar que eu vou escolher o próximo.
— Ok.
— Você!
— Por que eu?
— Por que eu?
— Ok. Então eu vou ser o segundo.
— Vai o caralho! Você acha que eu engoli essa? Se eu aceitar essa palhaçada hoje, vocês vão me transformar em putinha...
— Chega! 

Ele foi em direção a Régis, seguido dos outros dois. Começaram uma briga, mas Régis logo foi imobilizado.

— Me solta! Solta meu braço! Meu braço, filho-da-puta! É o direito!

Ele afrouxou a chave.

— Fica quieto, porra!
— Eu vou matar vocês, eu juro! Quando vocês me soltarem, eu vou enfiar uma bala na cabeça de cada um!
— Para de falar merda!

Eles soltaram o cinto e baixaram a calça do rebelde.

— Para! Me solta! 

Um deles já estava com o pau na mão.

— Pelo amor de Deus, não faz isso, cara! Eu estou te pedindo, não faz isso!
— Relaxa o cu, senão vai ser pior!
— Me ouve primeiro: eu estou te pedindo, como amigo, não faz isso! A gente não precisa fazer isso!
— Régis, relaxa.

Ele voltou a se debater e socaram-lhe o rosto, prensaram sua cabeça contra o chão.

Nada poderia ser mais doloroso que aquele momento. Sentiu que estava sendo arregaçado, que precisaria ser operado depois do estupro. O outro lhe fodeu quase vinte minutos antes de gozar. Queria vomitar quando sentiu a porra quente dentro dele, mas por mais que forçasse não tinha nada no estômago. Os outros dois repetiram o primeiro. Sentia a porra escorrendo pela perna. De repente, achou que iria chorar, mas reuniu toda sua resistência e permaneceu em silêncio. O último a meter gemeu um gozo intenso. Depois de tirar o pau de dentro de Régis, deu-lhe um tapinha na bunda, em agradecimento.

Naquela noite, Régis pouco pôde fazer. Setenta horas depois, matou os três. Arrependeria-se, depois, mas não agora.









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CENSURA

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CENSURA


Depois de se servir de uísque, Arturo assentou-se em sua poltrona na varanda e cobriu as pernas para se resguardar dos arrepios garantidos pelo frio crepuscular do final de outono. Há alguns dias, talvez uma semana, vinha repetindo esse ritual contemplativo de olhar a cidade pelos fundos da casa. A vista impressionava a todos os visitantes, e a ele mais ainda, que havia redescoberto um caro espaço.

Mais cedo — nos momento de contemplação era certo aflorar o mais cedo — ele havia estado em reunião de família, comemoração de aniversário, o seu e o de Enrique. Hoje, sentia-se injuriado sobre a mesma ferida, e se via obrigado a admitir que os filhos e as filhas haviam alcançado o virtuosismo de um musicista no trabalho de um torturador. Não houve discussões, nem arremedos, nem perguntas retóricas. Nem a filha mais velha, Elizabeth, o ferira com suas falsas gentilezas. Pouparam-nos dos olhares, das conversas em sua direção, das recomendações a Enrique sobre sua saúde, dos assuntos que evocavam a velhice do homem. Cinco anos mais cedo, a primeira vez em que levou Enrique para sua festa de aniversário, foi anunciada a batalha que seria retomada em natais, bodas, jogos da seleção. A ex-mulher ainda era viva e, entre outras palavras, lembrou-se de dizer “sodomita, Alzheimer, gigolô, câncer nas bolas e filho-da-puta”. Ano passado, já abrandadas as hostilidades, apenas as velas sobre o bolo: 24, 64 e sorrisos sem deboche, com piedade. Arturo pediu forças para manter a postura mais uma vez, mas já lhe enfadava demais a reprovação dos filhos à sua relação com Enrique.

Enrique era quarenta anos mais novo, portanto apenas lera sobre o terror da ditadura recente. Obviamente não era essa lacuna que tanto incomodava os filhos ao verem o pai desfilando o jovem namorado, que calhava de comemorar o aniversário no mesmo 31 de maio. Da primeira vez, Enrique ainda tinha vinte anos, e Elizabeth fingiu perguntar se ele já tinha idade para estar ao volante quando o viu chegar dirigindo o carro do pai.

— Tenho, sim senhora! Hoje estou fazendo vinte anos! — Enrique respondeu com gentileza e fingiu desprezar a provocação da improvável nora — Na verdade, eu já dirijo desde os catorze, mas confesso que sempre fico apreensivo com esse carro do seu pai. Toda hora acho que ele vai se desfazer no meio do caminho! Já prestaram atenção nos barulhos?

Alguns outros riram e aceitaram a simpatia de Enrique, afinal eles mesmos faziam troça com o velho carro que o pai se recusava a vender. Elizabeth persistiu, no entanto.

— Se você entende o perigo que é esse carro, então não deveria aceitar dirigi-lo!

Enrique hesitou uns poucos segundos.

— Eu bem sei que tenho enfrentado perigos maiores do que este... mas não se preocupe, ultimamente descobri talentos especiais para lidar com artigos mais velhos — e piscou, de um olho só, para Elizabeth, com um olhar lascivo, como se ela compartilhasse e vibrasse com seu comentário malicioso.

Esse foi o momento primeiro que fez com que Enrique conquistasse inimigos e respeito dentro da família, deixando Arturo arcar com as provocações que viriam nos anos seguintes.

Arturo Arriaga era um ícone da resistência à ditadura. Lutara com armas, palavras e amigos contra o regime que buscava varrer elementos subversivos; regime que se acabou por nunca saber o que era a subversão. Esteve exilado, com mulher e filhos, mas voltou. A despeito da insistência da imprensa e do próprio senso de dever que clamava por denúncias, evitava recontar as histórias que vivera. Fora torturado, contou finalmente ao filho mais novo. O país inteiro sabia, mas ele levou tempo para relembrar a morte do pai, a morte do irmão, presenciadas por ele.

— Enrique! — olhou para trás para se certificar de que estava sendo ouvido. — Enrique! Vem ficar aqui comigo!

Enrique trouxe sua própria coberta e uísque, e ajeitou-se na rede. Arturo esperou um pouco.

— De todas as pessoas vivas, Enrique, você é quem mais sabe sobre os infernos que eu sofri por conta da merda desse país, mas eu temo ter que usá-lo, de emergência, para fazer mais algumas confissões e divagações... de alguma maneira esse assunto não se esgota e eu continuo vivendo, e me incomodam até mesmo minhas leituras diárias que me lembram que tudo isso já passou faz tempo... Eu estava aqui me lembrando do dia em que o Raul me ligou no meio da noite. Tinha ficado sabendo por um infiltrado nosso que iriam fechar o jornal e recolher as prensas. Eu e a Lurdes pegamos o carreto, deixamos a Beth e o Gui sozinhos em casa, e resgatamos uma máquina, era o máximo que podíamos fazer. Durante seis anos, não, menos, uns quatro anos, a prensa que era do Diário rodou o material “subversivo”. Ríamos quando ficávamos sabendo dos rompantes de fúria do Capitão Mega, que não se conformava em não rastrear nosso quartel-general anti-censura. Ficava aqui, nessa casa. Essa era a casa do Chico Dunga, o brasileiro que nos ajudava. Eu não gosto de falar sobre a censura nas entrevistas porque o povo ainda não quer ouvir a respeito, eu acho isso pelo menos, porque todo mundo ainda quer ouvir sobre as mortes, as torturas, e quer saber como era exatamente a tortura, em que eu pensava na prisão, no exílio, e como escapamos do episódio de Plaza Luna. Mas de vez em quando eu penso em contar da diversão. Quando dei aquela entrevista aqui em casa, para o canal brasileiro, quase contei uns casos engraçados. Eu me diverti muito nessa época. Eu ficava aqui na casa do Chico Dunga, com o Raul, Ernani, o pessoal da universidade, a Lurdes e a Nanci, que na época eram amigas, e bebíamos o que fosse bebível. Uma vez, o Raulzito, que chamava Aurélio, eu já contei essa história do apelido? Então, ele misturou álcool etílico no suco de pêssego e ele mesmo quase entrou em coma com aquela merda. E ríamos, e compartilhávamos um prazer de sermos procurados, e de alguém querer censurar nossos panfletos, as peças de teatro, até mesmo nossos telefonemas no trabalho, e olha que o Ernani trabalhava em loja de pano. A censura dava força para o movimento, para a resistência. Eu amava a censura, Enrique! Falo sem medo. Eu me sentia bem em saber que aquele cretino do Mega se contorcia de ódio com o simples fato de eu existir. Uma vez eu falei isso pro Felipe, e a Lurdes me repreendeu, mas ele já tinha vinte anos e já sabia bem o gosto da rebeldia. Eu sempre falo isso para os meus filhos: não se acanhem com as censuras! Não tenham medo! Censura é só censura! É só desrespeitar! Você já notou como todo mundo lá em casa é combativo? Todo mundo quer sempre discutir, quer dizer o contrário, ou quer fazer escondido. Quando é contra o vizinho, fica tudo no pedestal, mas quando é entre nós, como quando o Bruno roubou o carro da mãe, a culpa é do espírito revolucionário… Eu amo demais minha família, Enrique, mas hoje eu notei que não houve uma repreensão sequer, você notou? Nada, nada, nem… nada, não falaram nada! Eu sei que queriam falar e etcétera, mas eles querem agora me ferir de outro jeito, eu sei, por isso deixo estar como está. Só estou falando isso porque, antes de você vir para cá, eu estava aqui pensando que eu morro de medo de ser ignorado, de um dia esse respeito todo que eles fingiram prestar já seja um sinal de indiferença, entende? Você acha que foi isso, que eles já estão pouco se fodendo pra mim? Não responde... nem ri! Para de rir!

Arturo riu junto com Enrique. Logo escureceu e esfriou, eles entraram enrolados nas cobertas. Enrique voltou lá fora para buscar os copos e a garrafa de uísque. Beberiam, por sugestão de Arturo, às censuras que os mantinham animados a rir e a resistir.





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GRAFITE

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GRAFITE


São Paulo havia se tornado um ponto de convergência do olhar dos mais antenados. Política, ciência, religião, entretenimento, dinheiro. Em 2028, podia-se afirmar com uma margem mínima de erro que em cada outra cidade do mundo havia um coração, pelo menos um, sedento de estar na capital do mundo.

Benjamim Machado, governador do município, gozava de uma ótima reputação ao redor do globo, e alguns suplementos de economia e negócios comparavam seu poder de influência ao do presidente do Brasil himself. Em seus oito anos no poder, Benjamim impressionou a todos com sua versatilidade para administrar projetos e imprevistos das mais diversas naturezas. Logo que assumiu o governo do município, reuniu-se com sua equipe de prefeitos e secretários e tratou de ganhar a simpatia e o apoio de todos. Investiu pesado em salários e tecnologia a fim de aparatar o aparelho governamental com as melhores mentes e ferramentas. Destacou-se publicamente por suas habilidades de lidar com a imprensa e, sem dúvida, de organizar sua agenda, pois era um político onipresente: estava em congressos, batizados, reuniões deliberativas do partido, peças de teatro, grupos de estudo, organizações não governamentais, jantares em família e, pode parecer incrível, comparecia a todos os seus compromissos de trabalho.

Estar nas graças de Benjamim Machado garantia a qualquer cidadão um status diferenciado. Sua secretária pessoal vivia lhe dizendo que um dia confeccionaria um broche com os seguintes dizeres: “Benjamim Machado sabe quem eu sou!” Ele ria do bom humor da secretária, a vaidade às vezes é engraçada.

Emílio Leite era um desses agraciados. Era o Secretário para Manutenção da Ordem Pública, que não era o mais importante dos cargos, mas seu bom relacionamento com Benjamim, que transcendia o campo profissional, fazia-lhe alvo da admiração e da inveja dos mais ambiciosos. Como Benjamim não era casado, nem tinha irmãos ou primos mais chegados, era sempre carente de companhias para eventos sociais, razão pela qual Emílio tornou-se figura de destaque, pois sempre acompanhava seu chefe nessas ocasiões. Ao apresentar seu subordinado, Benjamim não dispensava apostos elogiosos: “Este é Emílio Leite, Secretário para Manutenção da Ordem Pública, responsável pelos grandes avanços feitos para o bem-estar dos paulistanos nos últimos anos, um grande amigo meu”. Às vezes tocava na questão, no que viria a ser a delicada questão, mas que antes era apenas outra forma de acariciar o ego de Emílio. “Ele é também o responsável por limpar nossas ruas e monumentos. Quem poderia imaginar que São Paulo não teria mais pichações? Pois este homem não só imaginou esse cenário como o transformou em realidade. É a competência em pessoa!”

A campanha para dar cabo das pichações foi uma das primeiras ideias que Benjamim prontamente assumiu quando se tornou governador. Para ele, a empreitada sugerida por Emílio seria uma ótima forma de relembrar a todos os habitantes da cidade, diariamente, da força de sua obstinação. Para obter êxito nessa façanha, Emílio recebeu carta branca para mobilizar o poder legislativo, o poder judiciário, a polícia militar, a polícia civil, a associação comercial, o serviço de fiscalização, o departamento de limpeza pública e, principalmente, ficou subentendido para todos que as ordens dadas por Emílio representavam a vontade do governador. Em dois anos de esforços contumazes, novas leis foram criadas, muitas sugestões ouvidas, muitos protestos ignorados. Pichadores receberam suas sentenças, e as ONG’s mais bem intencionadas ganharam seus prêmios. Em dois anos, não havia pichações em São Paulo. Tudo limpo: pontes, prédios, portas, passarelas, placas, propriedades públicas ou privadas; tudo limpo!

“(...) E por essa conquista, essa conquista significativa não só para o nosso bem-estar, mas que nos serve como exemplo daquilo que pode ser realizado quando se tem vontade política, a Câmara Municipal e o Conselho Superior de Administração convidam o Sr. Emílio de Souza Leite para receber o título de Cidadão Benemérito da Cidade de São Paulo.”

O Arquivo Histórico do Município até publicou, em 2042, mais de uma década após os mandatos de Benjamim Machado, um material com fotos e vídeos do período em que a cidade permanecera limpa. Além do rico conteúdo em imagens, o produto disponível para vendas continha um livreto que narrava a campanha de Benjamim e Emílio – do começo ao fim.

Algumas semanas após aquela gloriosa noite em que foi laureado com o título de Cidadão Benemérito, quando Benjamim ainda era governador, Emílio Leite recebeu uma ligação alarmada de um dos funcionários de seu gabinete, informando-lhe sobre uma pichação no obelisco do Ibirapuera.

“Estou aqui?”
“É, só isso mesmo. Mas tem uma exclamação no final.”
“Estou aqui com uma exclamação?”
“É.”
“E a letra, o estilo? É de alguém conhecido?”
“Não. Na verdade é muito simples, bem amador. Poderia ter sido qualquer iniciante.”
“Chamou muita atenção?”
“Muita. Era muito grande. Mas eu já tomei todas as providências.”

Imediatamente foram acionados os responsáveis pela limpeza e pela investigação do delito. Contudo, só os primeiros obtiveram sucesso em sua missão.De posse das fotos feitas pelo seu pessoal, Emílio tentava explicar a situação a Benjamim.

“Foi só esse caso isolado.” argumentou Emílio, com o claro objetivo de não super-dimensionar o problema.
“Mas o que isso significa? ‘Estou aqui!’ É uma mensagem? É uma ameaça? Provocação?”
“Eu acho que pode ter a ver mais com uma resistência dos pichadores... não acho que tenha alguma conotação política mais grave.”
“É verdade. Isso parece coisa de baderneiro, de rebelde!”
“Sem dúvida.”

A conversa foi encerrada não sem alguma reticência. Nas semanas que se seguiram, Emílio experimentou dias de ansiedade e noites de insônia. Apesar da incisiva vigilância e dos avanços nas investigações, apareceram outras pichações como aquela primeira. No Masp, no Viaduto do Chá, na Catedral da Sé, na Estação da Luz, no Teatro Municipal, no Intervalo, no Pacaembu. Em pontos turísticos, em rotas conhecidas, em enormes letras rabiscadas com spray preto: Estou aqui!

“Como não descobriram ainda?”, Benjamim pressionava Emílio.
“Não descobriram.”
“Mas é o mesmo pichador?”
“Sobre isso não há dúvida. É o mesmo traço, o mesmo spray.”
“Isso é ridículo! Eliminamos milhares de pichadores dessa cidade e agora um espertalhão está fazendo todo mundo de idiota! Não é possível que não possam descobrir onde foi vendido o spray, ou que nenhuma câmera de segurança tenha imagens do momento da pichação! Para ser sincero, é impossível que, com tanta vigilância, ele tenha conseguido pichar justamente os lugares mais bem guardados!”
“Ele dá conta de tudo! Câmeras, seguranças, vestígios...”, Emílio admitia com um pouco de relutância a maestria do meliante.

Os esforços na busca do tal pichador continuaram, sem sucesso, por longos oito meses. Enquanto isso, a solução foi deixar um time de limpeza sempre de prontidão para desfazer o mal-feito. O que não foi possível de controlar foi a repercussão de toda a história na mídia e nas conversas informais.

“Você sabe o prejuízo político dessas pichações? Sabe o prejuízo político da sua incompetência, Emílio?”, as palavras de Benjamim tinham a intenção de feri-lo.
“Eu sei. Nós não desistimos de encontrar o pichador e...”
“A quem você está enganando, Emílio? O cara está fazendo gato e sapato de você e de toda a sua equipe, não está vendo?”

É claro que Emílio estava vendo. Viu também sua relação com Benjamim se desgastar a ponto de não se falarem nem nos encontros do governador com os prefeitos e secretários. Havia dias que acordava com raiva do pichador misterioso, com raiva de si mesmo, com raiva de Benjamim. Quando era ignorado por todos, que reproduziam o comportamento do governador, tinha vontade de gritar: Estou aqui! Sentia-se até um pouco vingado por aquele que transformara sua vida no inferno com aquelas palavras. Por fim, não aguentou tanta pressão, renunciando a seu cargo e também ao seu prestígio.

Menos de um mês após entregar sua carta de renúncia, Emílio foi acordado por seu telefone pessoal, que soava o toque reservado apenas para o governador. Não estava enganado, era mesmo Benjamim Machado que o chamava.

“Emílio?”
“Sim, sou eu. Algum problema?”
“Você pode vir aqui em casa?”
“Agora?”, Emílio estranhou o pedido feito às cinco da manhã.
“Se for possível.”

Emílio apressou-se em trocar de roupa e dirigiu em disparada rumo à casa de Benjamim. O outro já o esperava e, ao ouvir o motor do carro em frente à casa, abriu o portão da garagem para que Emílio entrasse. Os dois se cumprimentaram e, sem explicar muito, Benjamim conduziu Emílio até os fundos, onde ficavam a área de lazer, a quadra de tênis e a piscina.

Logo que chegaram ao deck da piscina, Emílio pôde entender o chamado do governador. No grande muro que separava sua propriedade da conseguinte, no enorme muro de pedras cinzas, havia um lírio amarelo. Ou melhor, havia sido pintado um lírio amarelo, com suas variações de tons e outros detalhes feitos em verde, preto e alaranjado. Se Emílio não conhecesse bem a casa e o gosto de Benjamim, poderia jurar que ele mesmo encomendara o serviço a um profissional.

“Desde quando está aí?”
“Foi feito durante a madrugada. Quando eu cheguei, às onze, não estava aí.”
“Acho que devemos chamar a polícia”, Emílio já empunhava o telefone.
“Não! Acho melhor não!”

Benjamim não precisou explicar a Emílio para que ele entendesse que chamar a atenção para o lírio amarelo no muro, naquele momento, era um exemplo da gestação de mais um possível prejuízo político. Depois de algum silêncio, cada um pensando no que fazer, Benjamim surpreendeu Emílio com sua pergunta.

“Você achou bonito?”
“O quê?”
“O lírio? Você não achou bonito?”

Emílio pensou de imediato que a pergunta poderia ser um teste, mas sua desconfiança foi se dissipando à medida que via Benjamim mudando a cabeça de posição para melhor apreciar a pintura.

“Não se pode dizer que é o trabalho de um amador...”, respondeu Emílio.
“Eu achei esplêndido!”
“Definitivamente não é o trabalho de um amador.”, ratificou Emílio.
“Como se chama essa técnica mesmo?”
“Grafite. Foi muito popular no início do século.”
“As cores são tão vibrantes! O lírio parece vivo!”, Benjamim deu um suspiro. “Eu adoro flores amarelas! Pensando bem, eu acho que adoro lírios amarelos, em especial.”

Emílio evitou entrar nas divagações de Benjamim. Não sabia onde ele estava querendo chegar.

Mudando de tom, Benjamim voltou-se para Emílio.

“Você sabe o que isso significa?”
“O lírio amarelo?”
“Não o lírio amarelo em si, mas a pichação?”
“Não exatamente.”
“Significa que agora há dois pichadores afrontando minha autoridade. Significa que o prejuízo político pode ser incalculável se não tomarmos as providências cabíveis. Significa que temos que agir rápido. Significa que você deve reassumir seu cargo para enfrentarmos essa ameaça juntos.”
“Reassumir a Secretaria?”
“Imediatamente. E mande apagar esse lírio amarelo antes que amanheça. Mantenha a imprensa longe disso.”

Em poucas semanas, São Paulo floresceu. Brotaram lírios amarelos nos lugares mais inusitados da capital do mundo. E logo lírios brancos, alaranjados, lilases. E logo rosas, orquídeas, margaridas. A cidade parecia um jardim. As cores dos grafites se multiplicavam em flores, rostos, palavras e manifestos. Foi breve o tempo até que os espaços vazios fossem preenchidos pela criatividade dos pichadores, cada um a sua maneira, dizendo: Estou aqui!

Benjamim e Emílio indignavam-se com o retrocesso – e com o prejuízo político – mas, quando já não estavam mais no poder, não podiam deixar de olhar para os muros e monumentos com outro olhar. Ainda criticavam o sem sentido que é rabiscar palavras incompreensíveis, revoltavam-se com a falta de respeito à propriedade pública ou alheia, assustavam-se com a quantidade de desenhos espalhados pela paisagem.

Porém, às vezes, somente às vezes, admiravam algumas obras de arte saídas de sprays, nascidas de uma resistência antiga.





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