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O QUE EU SEI SOBRE A FANTASIA

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o que eu sei sobre a fantasia


O que eu sei sobre a Fantasia é que só há uma.
Destarte, há somente uma Oração, uma Refeição, uma Trepada, uma Madrugada.
(derramem-se, temperem-se, gozem-se, sonhem-se)
A Sede é a mesma.





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ALÍVIO

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ALÍVIO 
           

Aldo já suspeitava da incomensurabilidade da liberdade desde a infância. O que aprendeu tardiamente foi que os alívios são negociáveis. A altos preços, geralmente. 

Há oito meses transara com um rapaz de 19 anos. Uma semana depois, o início do tormento. O assédio seguiu caminhos óbvios, que, se observados friamente, com a imparcialidade dos práticos, poderia até ganhar elogios sóbrios. 

As insistentes ligações pediam sexo. O pedido era razoável, a não ser pela impossibilidade de negá-lo. 

“Se não fizer o que eu quero, digo a todos que você é gay!” 

E Aldo fazia, primeiro com desconfiança, ainda tentando decifrar o rapaz. E embora logo tenha entendido que a bola de neve só corre para baixo, continuou cedendo às vontades e caprichos do outro. 

“Preciso de dinheiro.” E depois: “Quero dinheiro!” 
“Vamos nos encontrar.” E logo: “Estou indo aí!” 

E foram meses de avanços indefensáveis, batendo em retirada sempre. Aldo perdeu sono e dinheiro por conta da foda mal escolhida. 

Ligou para o pai, o irmão e a irmã. No almoço de domingo, disse a eles que era gay. Contou aos primos, a alguns colegas mais próximos. Em questão de dias, a vizinhança já tinha seu parecer sobre a sexualidade escondida de Aldo. Em outro pouco tempo, ele já respondia à curiosidade dos recém-avisados nas festas e no trabalho. 

A chantagem acabou. Sem gosto de vingança, o que teria dado a Aldo um antídoto para amenizar a descoberta de sua fragilidade. Contudo, o aperto passara: tirara o sapato, matara a fome, mijara, achara a coberta, recebera o telefonema, desengasgara, a chave aparecera, o remédio fizera efeito, vomitara, dissera.





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A MORTE DE CADA HOMEM

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A MORTE DE CADA HOMEM 


Os homens que crio já existem. 
Já nasceram os faróis que invadem minha fantasia. 
Os olhos que me espiam os segredos são mais astutos do que eu. 
A devassa irrefreável do meu imaginário diz: você não inventa, você não descobre, você é escravo! 
Sou escravo... sou escravo... sou escravo. Repito: sou escravo... 
Os homens que prendo com minhas histórias não são meus, não eram meus. Eu os roubei de outros, de si mesmos.
De mim. 
Os homens que crio têm vida e reagem quando acuados. 
Têm fome, e comem. 
Fazem força, e vencem. 
Cantam, em meus sonhos, e eu sou novamente escravo. 
As histórias que escrevo empurram homens contra homens, em encontros que também já se deram. Eu sempre chego atrasado. 
Caio e morro diante dos homens que me fizeram acreditar que era verdade. 


Cena [The fall, o filme] 

Ao lado do leito da pequena Alexandria, que sara da queda que lhe abriu a cabeça, Roy Walker, mentiroso, continua a covarde história que havia começado (e que história não é covarde?). Narra para a menina, enferma, o destino de toda criatura. Mata, um a um, seus possíveis heróis, já que havia fracassado na fácil tarefa de matar a si mesmo. Alexandria, menina, não entende, pois precisa acreditar que a morte não é feita para as histórias, mas para a vida, para o pai, para o que tem que ser. A enferma, que chora, protesta. 


Alexandria: Why are you killing everybody? Why are you making everybody die? 
Roy Walker: It's my story. 
Alexandria: Mine, too. 


Os homens que crio têm vida, mas foram criados para ter fim.
Nas páginas que coleciono, engendro a morte sem piedade, castigo a inocência dos inadvertidos. A morte assombra os homens que crio. 
Os homens que crio são meus e os mato, porque matar a mim mesmo me envergonha. 
Agrido, estupro, atiro, azaro, parto, corto, perfuro, assassino, palavro. 
Empurro. 
Eu queria mesmo era dizer: Obrigado, Cael! Obrigado, Dom! 
Queria ter a opção de deixá-los vivos... 
Mas eu desaprendi a ser grato aos que não são meus devotos. 
Os homens que eu crio correm para longe de mim, para fugir da morte. 
Por vezes, a compaixão me faz tremer os dedos. Vacilo quanto ao que me é dado dizer. A respiração não se comporta... mas logo se comporta. Então corro por entre letras, desvio-me pra lá e pra cá, passo entre linhas, acerto o passo, preparo a armadilha, rio antes do crime (porque sei que depois não terei vontade), e apresento aos meus homens, pela primeira vez, mais uma vez, a morte. 


mim mesmo: Por que você está matando todo mundo? Por que você está fazendo todos morrerem? 
mim mesmo: A história é minha. 
mim mesmo: Minha também.

Eu digo: Obrigado, Ulisses! 
Que lamentável essa perseguição de mim mesmo! 
Eu disse lamentável !? 
Disse mesmo a palavra lamentável !? 
– não era minha intenção – 
– que lapso – 
– quase uma anedota – 
Deveria ter dito louvável... 
Que louvável os que sobrevivem a si mesmos! 
Matar é melhor que morrer. 

(Mentira! Eu os queria vivos! I’m sorry!)





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