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TORCEDOR




TORCEDOR



Durante a faculdade eu conheci o homem que viria a ser um dos meus grandes amigos: Giovani. Junto com ele, conheci sua família. Mas, antes disso, eu já sabia tudo sobre seus pais, irmãos, namorada, tios, vizinhos. Passeis cinco anos ouvindo-o narrar histórias, chorar problemas, pirraçar com os conflitos...

Aos poucos, quando ia conhecendo os personagens reais daquelas histórias, tinha mesmo que reconhecer o poder de Giovani de analisar as pessoas. Eu já sabia como se comportava cada um deles. Seu pai era mesmo um pianista de década de 70, preso na vida de um médico dos anos 90. Sua mãe ficava mesmo feliz, “como se a vida valesse a pena”, quando elogiavam sua casa. Ellen, sua namorada, era mesmo a serenidade que todos procuramos em um grande amor. O vizinho, Sr. Ernesto, tinha mesmo o olhar sedutor e um traquejo para os diálogos cruéis.

A única agradável surpresa que tive foi com relação a seu irmão caçula, Luca. Concordei com Giovani em quase tudo sobre ele: protegido ele era, disperso ele era, voluntarioso ele era. Porém, na tarde em que eu fiquei vendo filmes e jogando videogame com o Luca, que, à época, tinha 14 anos, vi outro rapaz. Giovani me havia advertido que seria impossível assistir o filme com o Luca, pois ele falava o tempo inteiro, e eu era muito chato com isso (aliás, eu descobri, depois, que nas histórias do Giovani eu era o “cidadão politicamente correto”).

Naquela tarde, Luca e eu vimos um filme sobre um casal improvável: de um lado, egoísmo, arrogância e medo; de outro, vontade e ternura. E foi dando certo, ainda que todos desacreditassem. E foi dando mais certo, ficando bonito, ficando como sonho bom. Mas como todo filme precisa de um nó, as coisas começaram a desandar. E quando o primeiro sinal de desencontro apareceu, Luca levantou-se da poltrona e gritou para o homem na tela: “não, não, não! Você vai estragar tudo desse jeito! Foi tão difícil chegar até aqui! Por favor... por favor, não faça isso... Você vai estragar tudo, cara... Filho da puta! Não acredito que você está fazendo isso! Isso é inacreditável! Estúpido!”.

Então ele olhou para mim, buscando concordância, e eu concordei, fazendo que sim com a cabeça.

— Eu não quero mais ver esse filme! Eu volto depois que acabar, ok?
— Ok. — disse eu — Sem problema.

Depois, quando subi ao seu quarto, ele estava jogando Nascar no videogame, dirigindo com toda violência possível. Quando me viu, parou o jogo.

— Desculpa não ter terminado o filme. É que eu não gosto quando as pessoas perdem a chance de ser feliz. Ainda mais assim, de tanta estupidez.

Aquele dia eu pensei: “É esse o homem que eu quero para mim”.








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O QUE EU SEI SOBRE OS PAIS

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o que eu sei sobre os pais


O que eu sei sobre os pais é um homem, mais outro homem, mais outro, e ainda outro, outros tantos, é o meu pai. Eu conto a ele que eu, finalmente, também serei pai.

Eu peço que espere, que pare de gritar, pois já estou indo com a sopa. Eu o ouço por longas horas, pois não sei o que fazer. Eu digo a ele que perdi o emprego. Eu me recordo do único dia em que pescamos juntos. Eu não o convido para assistir o futebol. Eu o provoco, acusando Aristóteles de ser um covarde. Eu pego seu carro escondido. Eu tenho medo de meu pai. Eu não lembro que meu pai está em casa. Eu prefiro não conversar agora. Eu não sei quem é meu pai, meu pai não sabe que eu sou seu filho, meu pai é tudo o que tenho, eu só confio em meu pai, onde está o meu pai? Cadê papai?

Agora ele será avô, e eu serei filho, e ele será pai.








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CENSURA



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CENSURA

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CENSURA


Depois de se servir de uísque, Arturo assentou-se em sua poltrona na varanda e cobriu as pernas para se resguardar dos arrepios garantidos pelo frio crepuscular do final de outono. Há alguns dias, talvez uma semana, vinha repetindo esse ritual contemplativo de olhar a cidade pelos fundos da casa. A vista impressionava a todos os visitantes, e a ele mais ainda, que havia redescoberto um caro espaço.

Mais cedo — nos momento de contemplação era certo aflorar o mais cedo — ele havia estado em reunião de família, comemoração de aniversário, o seu e o de Enrique. Hoje, sentia-se injuriado sobre a mesma ferida, e se via obrigado a admitir que os filhos e as filhas haviam alcançado o virtuosismo de um musicista no trabalho de um torturador. Não houve discussões, nem arremedos, nem perguntas retóricas. Nem a filha mais velha, Elizabeth, o ferira com suas falsas gentilezas. Pouparam-nos dos olhares, das conversas em sua direção, das recomendações a Enrique sobre sua saúde, dos assuntos que evocavam a velhice do homem. Cinco anos mais cedo, a primeira vez em que levou Enrique para sua festa de aniversário, foi anunciada a batalha que seria retomada em natais, bodas, jogos da seleção. A ex-mulher ainda era viva e, entre outras palavras, lembrou-se de dizer “sodomita, Alzheimer, gigolô, câncer nas bolas e filho-da-puta”. Ano passado, já abrandadas as hostilidades, apenas as velas sobre o bolo: 24, 64 e sorrisos sem deboche, com piedade. Arturo pediu forças para manter a postura mais uma vez, mas já lhe enfadava demais a reprovação dos filhos à sua relação com Enrique.

Enrique era quarenta anos mais novo, portanto apenas lera sobre o terror da ditadura recente. Obviamente não era essa lacuna que tanto incomodava os filhos ao verem o pai desfilando o jovem namorado, que calhava de comemorar o aniversário no mesmo 31 de maio. Da primeira vez, Enrique ainda tinha vinte anos, e Elizabeth fingiu perguntar se ele já tinha idade para estar ao volante quando o viu chegar dirigindo o carro do pai.

— Tenho, sim senhora! Hoje estou fazendo vinte anos! — Enrique respondeu com gentileza e fingiu desprezar a provocação da improvável nora — Na verdade, eu já dirijo desde os catorze, mas confesso que sempre fico apreensivo com esse carro do seu pai. Toda hora acho que ele vai se desfazer no meio do caminho! Já prestaram atenção nos barulhos?

Alguns outros riram e aceitaram a simpatia de Enrique, afinal eles mesmos faziam troça com o velho carro que o pai se recusava a vender. Elizabeth persistiu, no entanto.

— Se você entende o perigo que é esse carro, então não deveria aceitar dirigi-lo!

Enrique hesitou uns poucos segundos.

— Eu bem sei que tenho enfrentado perigos maiores do que este... mas não se preocupe, ultimamente descobri talentos especiais para lidar com artigos mais velhos — e piscou, de um olho só, para Elizabeth, com um olhar lascivo, como se ela compartilhasse e vibrasse com seu comentário malicioso.

Esse foi o momento primeiro que fez com que Enrique conquistasse inimigos e respeito dentro da família, deixando Arturo arcar com as provocações que viriam nos anos seguintes.

Arturo Arriaga era um ícone da resistência à ditadura. Lutara com armas, palavras e amigos contra o regime que buscava varrer elementos subversivos; regime que se acabou por nunca saber o que era a subversão. Esteve exilado, com mulher e filhos, mas voltou. A despeito da insistência da imprensa e do próprio senso de dever que clamava por denúncias, evitava recontar as histórias que vivera. Fora torturado, contou finalmente ao filho mais novo. O país inteiro sabia, mas ele levou tempo para relembrar a morte do pai, a morte do irmão, presenciadas por ele.

— Enrique! — olhou para trás para se certificar de que estava sendo ouvido. — Enrique! Vem ficar aqui comigo!

Enrique trouxe sua própria coberta e uísque, e ajeitou-se na rede. Arturo esperou um pouco.

— De todas as pessoas vivas, Enrique, você é quem mais sabe sobre os infernos que eu sofri por conta da merda desse país, mas eu temo ter que usá-lo, de emergência, para fazer mais algumas confissões e divagações... de alguma maneira esse assunto não se esgota e eu continuo vivendo, e me incomodam até mesmo minhas leituras diárias que me lembram que tudo isso já passou faz tempo... Eu estava aqui me lembrando do dia em que o Raul me ligou no meio da noite. Tinha ficado sabendo por um infiltrado nosso que iriam fechar o jornal e recolher as prensas. Eu e a Lurdes pegamos o carreto, deixamos a Beth e o Gui sozinhos em casa, e resgatamos uma máquina, era o máximo que podíamos fazer. Durante seis anos, não, menos, uns quatro anos, a prensa que era do Diário rodou o material “subversivo”. Ríamos quando ficávamos sabendo dos rompantes de fúria do Capitão Mega, que não se conformava em não rastrear nosso quartel-general anti-censura. Ficava aqui, nessa casa. Essa era a casa do Chico Dunga, o brasileiro que nos ajudava. Eu não gosto de falar sobre a censura nas entrevistas porque o povo ainda não quer ouvir a respeito, eu acho isso pelo menos, porque todo mundo ainda quer ouvir sobre as mortes, as torturas, e quer saber como era exatamente a tortura, em que eu pensava na prisão, no exílio, e como escapamos do episódio de Plaza Luna. Mas de vez em quando eu penso em contar da diversão. Quando dei aquela entrevista aqui em casa, para o canal brasileiro, quase contei uns casos engraçados. Eu me diverti muito nessa época. Eu ficava aqui na casa do Chico Dunga, com o Raul, Ernani, o pessoal da universidade, a Lurdes e a Nanci, que na época eram amigas, e bebíamos o que fosse bebível. Uma vez, o Raulzito, que chamava Aurélio, eu já contei essa história do apelido? Então, ele misturou álcool etílico no suco de pêssego e ele mesmo quase entrou em coma com aquela merda. E ríamos, e compartilhávamos um prazer de sermos procurados, e de alguém querer censurar nossos panfletos, as peças de teatro, até mesmo nossos telefonemas no trabalho, e olha que o Ernani trabalhava em loja de pano. A censura dava força para o movimento, para a resistência. Eu amava a censura, Enrique! Falo sem medo. Eu me sentia bem em saber que aquele cretino do Mega se contorcia de ódio com o simples fato de eu existir. Uma vez eu falei isso pro Felipe, e a Lurdes me repreendeu, mas ele já tinha vinte anos e já sabia bem o gosto da rebeldia. Eu sempre falo isso para os meus filhos: não se acanhem com as censuras! Não tenham medo! Censura é só censura! É só desrespeitar! Você já notou como todo mundo lá em casa é combativo? Todo mundo quer sempre discutir, quer dizer o contrário, ou quer fazer escondido. Quando é contra o vizinho, fica tudo no pedestal, mas quando é entre nós, como quando o Bruno roubou o carro da mãe, a culpa é do espírito revolucionário… Eu amo demais minha família, Enrique, mas hoje eu notei que não houve uma repreensão sequer, você notou? Nada, nada, nem… nada, não falaram nada! Eu sei que queriam falar e etcétera, mas eles querem agora me ferir de outro jeito, eu sei, por isso deixo estar como está. Só estou falando isso porque, antes de você vir para cá, eu estava aqui pensando que eu morro de medo de ser ignorado, de um dia esse respeito todo que eles fingiram prestar já seja um sinal de indiferença, entende? Você acha que foi isso, que eles já estão pouco se fodendo pra mim? Não responde... nem ri! Para de rir!

Arturo riu junto com Enrique. Logo escureceu e esfriou, eles entraram enrolados nas cobertas. Enrique voltou lá fora para buscar os copos e a garrafa de uísque. Beberiam, por sugestão de Arturo, às censuras que os mantinham animados a rir e a resistir.





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AMOR

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AMOR 


João fartou-se e logo tratou de voltar à geladeira aquilo que ele havia colocado para fora. Depois de guardado tudo, pensou em Haruo. Às quintas-feiras o parceiro chegava exausto, pois sempre participava de mais de uma cirurgia. Retirou de novo o peito de peru, a rúcula, o tomate, o creamcheese e a mostarda doce, e preparou dois sanduíches para Haruo. Ajeitou-os em um prato. Conferiu se ainda havia suco na caixinha. Anotou no quadro de recados afixado na porta do congelador: “sanduíches prontos Beijo”. Escovou os dentes, vestiu calças pretas, cinto novo, e uma camisa social que Haruo ganhara de uma paciente, mas da qual não havia gostado; achava que parecia roupa de palhaço, toda listrada de vermelho e branco. João parou em frente ao espelho no final do corredor e achou-se bonito. Ajeitou mais uma vez os cabelos ainda molhados de gel. Dobrou os punhos da manga para descontrair o visual; deu certo; gostava de mostrar os antebraços, que eram fortes. Estava perfumado, João andava sempre perfumado. Calçaria os sapatos na saída, não se usava sapato dentro da casa de Haruo e de João, tradição japonesa.

Pronto para sair de casa, ouviu Haruo chegar. Foi ao seu encontro. 

Haruo entrara encharcado pela porta da frente. Chovia lá fora. 

— O que aconteceu? Você está sem carro? — João logo percebeu, pois Haruo usava habitualmente a porta da garagem. 
— Fiquei. Acabou a bateria. Preciso que você me leve lá no hospital pra fazermos uma chupeta. 
— Agora!? 

Só então Haruo percebeu que João estava vestido para um compromisso. 

— Aonde você vai desse jeito? 
— Eu vou ao aniversário do Douglas! 
— Que Douglas? — Haruo não fazia a mínima ideia de quem era o sujeito. 
— O Douglas do curso de entalhe! 
— E você vai ao aniversário dele? — havia, já, um julgamento negativo na pergunta de Haruo. 
— Vou. 
— Você vai ao aniversário de um cara que você conheceu há menos de um mês no curso de entalhe de madeira? 
— Vou. E o curso começou há quatros meses. 
— Você vai sozinho? 
— Vou. 

A cada resposta, João gostaria de ter acrescentado: “algum problema?”, mas viu que Haruo estava cansado e mal humorado, e deixou de lado. 

— Então tá. Mas antes você vai ter que ir comigo lá no hospital. 
— Haruo! 
— O quê? — fingindo não compreender a exclamação de João. 
— Eu tô saindo! Não dá pra eu ir parar lá no hospital agora! 
— Por que não? Que horas é o aniversário? 

João não responderia essa pergunta. Sabia que Haruo forjaria o que ele próprio julgava ser uma solução, fazendo tudo se resolver do seu jeito, sem se preocupar com o incômodo que causaria. Ele tinha a perfeita noção de quando agia inoportunamente, mas fazia sempre questão de fazer suas propostas parecerem óbvias e justificáveis. Mas João pensou “não dessa vez!” 

— É agora. 
— Agora? E você não pode chegar um pouco atrasado? Ou vai ter alguém na porta registrando a presença pontual dos convidados? Nem é muito esperto chegar cedo em uma festa onde você não conhece ninguém!
— Como “não conheço ninguém”? 
— E conhece? — Haruo retomou o deboche, sem esconder a irritação. — Quem? A “galera” do curso de entalhe? 
— É. A “galera” do curso de entalhe! — João viu sua própria paciência começar a se esgotar; a provocação foi aceita. 
— Custa você ir até o hospital comigo? Não vai levar nem meia hora! 
— É claro que vai levar meia hora, né, Haruo! Mais de meia hora até! Ainda mais com essa chuva e a essa hora! E quem vai fazer a chupeta? Você? Não vai, vai? Então vai sobrar pra mim! 
— Você tá preocupado em sujar sua roupa? — mais provocação. 
— Ah, Haruo, pode parar! Não vou cair na sua pilha não! Amanhã eu te levo no hospital de manhã e a gente resolve isso! Você nem precisa do carro hoje à noite, precisa? — antes de completar a pergunta, João viu que encurralara Haruo — Então pronto! Amanhã nós vamos lá! 

João sentou-se junto à porta, em um pequeno banco de madeira feito por ele mesmo, para calçar os sapatos.

— Você quando está de má vontade é dose! — Haruo não desistira da discussão. 
— Má vontade, Haruo!? Má vontade!? É você que não suporta ser contrariado! Não está vendo que não é isso? 
— Além do mais, você nem precisa ir nessa festa! 
— É claro que não preciso! Mas eu quero! E eu vou! 
— Então vai! Ninguém está te impedindo! E mesmo que eu tentasse, você só faz o que você quer mesmo!
— Puta que pariu, cara! Você quando decide ser chato, você se supera! Já conseguiu estragar minha noite antes de ela começar! 
— Ah, desculpa! Você me desculpa? — agora o deboche tomava contornos cômicos — Você me perdoa por ter estragado sua noite alegre com a turminha da marcenaria? 
— Muito maduro da sua parte, Haruo! Parece um menino mimado! Você e uma criança mimada são mera coincidência! Quando não consegue o que quer, faz pirraça!

Haruo trocou o ar de troça por um outro; havia raiva. 

— Mas é o menino mimado que sustenta essa casa! Então eu acho que ele tem o direito de fazer pirraça quando ele quiser!
— Ah, vai se foder, Haruo! 

Essa machucou João. Esse entendimento de Haruo já havia escapado em outras conversas, mas nunca assim, nesse tom. 

— Ah... agora quem é o menino pirracento? 

João sentiu-se acuado. Sentiu-se assim porque o golpe, o golpe de Haruo o magoara. 

— Eu nem acredito que você está falando isso comigo, Haruo... 
— Não acredita por quê? — Haruo insistia no conflito, mesmo ao ver que João começara a falar de outro lugar, um mais delicado. — Ou não é verdade? Não sou eu que mantenho essa casa? 
— E que prazer te dá jogar isso na minha cara, não é? Essa estava guardada, não estava? Agora me diz o que você acha que você ganha com isso, cara! O que você quer que eu diga agora? Obrigado? 
— Seria um começo! Melhor ainda seria se você não fizesse tanto drama pra me dar uma carona! Uma carona com o carro que eu comprei! Lembra? Eu comprei! 
— Então é isso? É dinheiro o problema? Então muito obrigado! — João jogou a chave do carro no peito de Haruo. — Eu vou de táxi! Não preciso do precioso carro que você comprou! 
— Não precisa não, é? E vai fazer como? Vai ficar sem o carro amanhã também? E depois de amanhã? Vai viver sem carro? 
— Eu posso comprar um carro com meu próprio dinheiro! Você não é o único que trabalha nessa casa!

Haruo deu uma gargalhada forçada, teatral, um personagem: vilão. 

— Você chama isso de trabalho? Fazer banquinho de madeira? Mesinha de centro? Consertar cadeira? Se você levasse isso a sério, você tinha um negócio! Vendia, ganhava dinheiro! Mas não é brincando de marceneiro na garagem que você vai conseguir alguma coisa! Ou você acha que vai comprar um carro depois que terminar o seu curso de entalhe? Não! Não vai! Você vai usar o que eu te dei! Assim com está usando minha camisa! Minha casa! Então não banca o bonzão não, porque tudo isso fui eu que te dei! Eu! 
— Você acha mesmo que você me deu tudo que eu tenho? Tudo? De que sem você eu estaria perdido? Um pobre coitado, mendigando nas ruas? 
— É uma possibilidade. Afinal de contas você nunca foi muito inclinado pro trabalho, foi? Quando foi que um projeto seu foi pra frente? E por favor, não me venha falar que esses banquinhos são um plano de carreira porque aí já é abusar da minha inteligência! 
— É claro que meu trabalho não vale nada, não é, Haruo? Que trabalho nesse mundo pode competir com o nobre ofício do grande cirurgião plástico que trabalha em dois hospitais e mais um consultório particular? Nem o presidente deve ter uma função tão importante! Aposto que o seu trabalho é também o mais difícil e o mais cansativo da face da terra! 
— Talvez seja! Mas você nunca vai entender, porque enquanto eu estou ralando o dia inteiro, você fica aqui, vendo televisão, vai da academia pro clube, do clube para academia! Seu conceito de cansaço é fazer uma série de supino a mais! Pra ficar gostoso você tem tempo, não é? Tem ânimo pra dar e vender! 
— Então o problema é o que eu faço com meu tempo livre? 
— O problema, que você claramente não vê, é que você tem muito mais tempo livre do que deveria! Aí acaba pensando que jogar tênis e malhar são compromissos de verdade! 
— Você quer que eu pare de malhar então? 
— Eu? Eu não quero nada! Malha o quanto você quiser! Eu, se fosse você, também iria me desdobrar em dois para manter esse corpo bem sarado! — não era um elogio. 
— O que você que tá querendo dizer? 
— Tô querendo dizer que eu acho ótimo que você tenha pelo menos um objetivo na vida! Ainda que sua meta seja um abdômen rasgado! 
— Então você acha que ser sarado é minha grande conquista? Minha única conquista? Que é a coisa mais importante da minha vida? 
— E não é? 
— Deixa de ser ridículo, Haruo! Você tá falando merda só porque não tem o que falar! 
— Então vai me dizer que você não é obcecado com seu corpo! 
— Posso até ser! E daí? O que isso tem a ver? Eu gosto do meu corpo sim! Ou agora eu tenho que ter vergonha do meu corpo? Ou é crime eu querer ser gostoso? 
— Claro que não! Eu te apoio totalmente nesse projeto! Vou até te pedir um favor: depois você me lembra de comprar uma sunga nova pra você, pra você desfilar em volta da piscina, bem devagarzinho. Patético! “Olhem meu peitoral, olhem minhas coxas enormes, olhem meu tanquinho!” — Haruo esboçou uma imitação, mas não foi adiante. 
— Agora eu entendi! É despeito! É o espírito de menino magrelo que ainda não saiu de você! 
— Por quê? Você acha que eu tenho inveja de você? Você acha que eu, eu, me submeteria ao papel que você se submete, de ficar exibindo a bunda como se fosse um troféu? O mais triste é que você pensa que estão todos babando por você, que é impossível resistir aos seus encantos, não é mesmo? 
— Funcionou com você! Você pode ficar aí fazendo o discurso que você quiser, mas no dia que me conheceu não conseguia tirar o olho de mim! E agora fica dando uma de guru da beleza interior! 
— Vai ver você tem razão! Ninguém pode falar que seu investimento em tantas horas puxando ferro foram inúteis! Acabou fisgando um médico otário pra bancar sua academia! Eu: o otário aqui! 

Desse ponto em diante, já não cabiam mais para João acusações alteradas ou perguntas retóricas. Assumiu voz sincera. 

— Eu não acredito, Haruo, que depois de tanto tempo vivendo juntos, você está pintando esse quadro. Então é assim que você vê as coisas? Eu sou o bonitão sarado que, sem capacidade de sobreviver às próprias custas, arranjou um doutor benevolente para sustentá-lo? Você acha que é esse seu lugar na minha vida? 
— É você quem está dizendo... 
— De alguma maneira, cara, eu não quero nem pensar que você acredita mesmo em tudo isso que você está dizendo... 

Não houve resposta. Os dois ficaram sem rumo. João estava pronto para sair, mas que festa haveria? Haruo tirou a camisa molhada, mas não soube onde colocá-la. 

— Estou me sentindo humilhado... — João soltou, em um desabafo apertado. Não gostou de tê-lo dito, mas foi invadido por uma sensação que estava sobre o pouco, sobre o muito pouco. Deixou o silêncio se esticar sobre sua fraqueza.

— João? — o semblante de Haruo era outro, um que já não aparecia há anos. 
— Eu não me importo com seu dinheiro, Haruo, e você sabe disso. Quando eu me apaixonei por você, não foi por isso, definitivamente. E você bem sabe que eu não dependo de você, que eu sou tão inteligente quanto você, mais até, e que eu poderia estar em outro lugar agora. Mas eu aceitei estar aqui, com você, ser sustentado por você, porque estar perto de você era mais importante para mim do que tantas outras coisas. E, tirando ocasiões como a de hoje, quando você me diz esse monte de crueldades, eu não me arrependo de ter largado tudo. Eu amo você, Haruo. Mas eu não dependo de você. Meu trabalho não é um hobby e rende muito mais dinheiro do que você faz parecer, e você também sabe bem disso. E eu odeio quando você fala do meu corpo como se o desprezasse, como se meu esforço para mantê-lo forte e desejável fosse uma estupidez sem tamanho. Esse é o mesmo corpo que eu levo pra cama, é o meu corpo, o corpo que eu te entrego. E eu juro, Haruo, se mais uma vez você virar pra mim e disser “minha casa”, como se essa casa fosse apenas sua, eu vou embora e nunca mais eu volto. Eu não estou aqui para estar sozinho, eu estou aqui pra vivermos juntos. Eu não sou seu colega de quarto, eu sou seu marido. Não me transforme em uma mágoa. 

João estava sentido. Caminhou na direção de Haruo; não em direção a ele, mas à chave do carro que estava no chão, a seus pés. Não voltou, depois disso, em nenhum momento, os olhos para Haruo. Ao abrir a porta, foi interrompido. 

— Aonde você vai? 
— Não é a nenhuma festa, pode ter certeza. 
— Você vai voltar? 
— Não essa noite. 

Haruo amava João e queria viver o resto de sua vida ao lado dele. João amava Haruo, mas precisava magoá-lo, feri-lo. Precisava dar o troco. Saiu de casa e foi a uma festa, não à de aniversário, mas a uma outra, cheia de homens disponíveis. Logo encontrou um que o quisesse, seu corpo, seu desamparo, e beijou-o. O beijo foi suficiente para que se arrependesse, para voltar para casa. Na cozinha, o arrependimento de Haruo lia atrasado o outro beijo de João, aquele deixado com os sanduíches. Pegou o telefone para ligar para o parceiro, mas ouviu o portão da garagem se abrindo, um pouco de alegria veio no encalço. João e Haruo se entenderam naquela noite. Pela manhã, com mais clareza, reiteraram desculpas e conversaram sobre antigos ressentimentos. Houve também tempo para relembrarem o namoro, o encantamento, a sedução, a decisão, o amor. Foram ao hospital, João restabeleceu a bateria do carro de Haruo e esperou que ele desmarcasse os compromissos daquela sexta-feira. Voltaram para casa em carros separados, mas queriam estar no mesmo, pois era hora de ficarem juntos. 

Oito meses depois, em uma festa na casa de seus pais, Haruo descobriu sobre aquele deslocado beijo de João. A noite maldita foi evocada com o vigor de uma novidade. A briga começou — recomeçou — no meio da festa, mas, por insistência de João, continuou no escritório, a portas fechadas. Os dois choraram os seus erros, outras acusações foram levantadas, mas ninguém mais precisava se defender, já se conheciam muito bem. João pediu perdão e disse que amava Haruo. Disse “eu amo você”. Haruo disse “eu também te amo, João, amo muito” e pediu perdão. Queriam limpar-se das más intenções com palavras diretas; era o principal: amavam-se. 

E mais uma vez — essa não seria a última — tomaram a decisão de permanecer. Não iriam embora, não se importariam nem com as verdades nem com as mentiras. Mais uma vez, mais essa outra vez, olhariam um para outro, para si mesmos, e repetiriam a escolha: custosa opção. Já haviam perdido muito nessa brincadeira, porém era assim mesmo que gostariam de prosseguir. Os votos eram de vontade e de amor.





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ENGANO

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ENGANO 


Aurélio sobreviveu a uma escarlatina no seu primeiro ano de vida, quando todos acharam que ele não vingaria. Um ano após o susto, era impossível imaginar criança mais saudável e mais bem desenvolvida. Dessa época, Aurélio não se lembra. 

Quando tinha 4 anos, Aurélio descobriu aliviado que “fazer nebulização” não tinha nada a ver com ser cozinhado e servido como uma leitoa, o que obviamente não era intenção de seus pais. No ano que se seguiu, foi inevitável para Aurélio acumular outros muitos significados distorcidos e um saldo expressivo de alívios e decepções. Nessa época, não sabia o que era “semana que vem” nem “semana passada”, mas esperava ansiosamente a chegada do Coelhinho da Páscoa. 

Quando tinha 9 anos, Aurélio pensou que seu pai cedo ou tarde descobriria que havia sido ele o responsável pelo rasgo no estofado do carro. Enganou-se também, quando, um ano depois, confessou sua culpa, achando que o pai relevaria o malfeito e a omissão. Nessa época, tinha medo de ficar trancado no quarto, dos valentões da escola e de Deus. 

Aos 16 anos, Aurélio passou um mês planejando viajar com os colegas de turma, mas o passeio ao parque nacional nunca aconteceu. Um ano mais tarde, acalentou a esperança de ser amado por sua professora de francês, mas ela nem sequer lembrava o seu primeiro nome. Nessa época, gostava de meninas, de meninos e de filmes de sacanagem. 

Aos 25 anos, Aurélio desistiu da carreira de professor e voltou à universidade para estudar Medicina, esperançoso de que essa profissão fosse lhe dar mais recompensas do que a outra. Contudo, antes de completar um ano de estudos, abandonou a faculdade e voltou a lecionar. Nessa época, acreditava na democracia, na esquerda e nas histórias que os amigos lhe contavam quando voltavam de viagem. 

Seu primeiro filho nasceu quando tinha 36 anos, e Aurélio, em uma noite de satisfação plena, ouviu Ella Fitzgerald e tomou uísque, e não teve dúvidas de que seria o cabeça de uma família feliz e sadia. Depois de um ano, estava sozinho com o filho e precisava pedir ajuda para lidar com o menino e consigo mesmo. Nessa época, tinha dificuldades para dormir, para pagar as contas e para acreditar. 

Em seu aniversário de 49 anos, Aurélio prometeu à sua segunda esposa que venderia o carro que já havia comprado há mais de uma década. Um ano mais tarde, esse mesmo carro foi roubado em frente à portaria do condomínio em que residia. Nessa época, orgulhava-se de seu sucesso profissional, orgulhava-se da inteligência do filho e das declarações de amor que escrevia para a mulher. 

Com 64 anos, Aurélio olhou para o teto e viu o lustre como uma bola de fogo incandescente e em seguida a dor lhe tirou a consciência. Um ano após o infarto, estava correndo ao redor da lagoa, mesmo que nunca tivesse praticado esporte em toda sua vida. Nessa época, desistiu de assistir jogos de futebol na televisão, de tentar ser amigo de seus alunos e de comprar uma casa na praia. 

Tornou-se bisavô aos 81 anos, mas tinha receios de não ver o filho de seu neto preferido, pois estava muito doente e se encontraria com toda a família somente quando viessem para o Natal. Sua ansiedade durou quase um ano inteiro, mas, em meados de dezembro, estava assentado em sua poltrona com o bebê, que também se chamava Aurélio. Nessa época, sentia-se confortável na companhia de desconhecidos, confortável consigo mesmo, confortável mesmo no tédio. 

A festa que celebrou seus 100 anos de vida foi realizada no Haras Suíça, lugar no qual nunca imaginou que fosse colocar os pés. Um ano depois, tomando café da manhã, Aurélio se perguntou se viveria ainda muito tempo. Pôs sua vida, sua história, sob o escrutínio da memória e conseguiu contar infinidades de fatos, de eventos, de acontecimentos que se entrelaçavam com perfeição, de maneiras improváveis e inusitadas. 

Na noite daquele mesmo dia, a família reuniu-se mais uma vez para celebrar seu aniversário. A esposa de um de seus netos, com quem ele morava, apressava-se aflita para que o jantar saísse conforme o planejado. Porém, o assado de bacalhau, o prato principal da noite, escorregou-lhe das mãos pouco antes de chegar à mesa, misturando-se aos cacos de vidro e ao desapontamento da anfitriã. Aurélio, que já andava com um pouco de dificuldade, fez menção de se levantar para ajudá-la a limpar a bagunça, mas todos intervieram para que ele não o fizesse. Enquanto os outros davam conta de dar conta do imprevisto, Aurélio tentava consolar a esposa do neto, a quem tratava como uma filha. 

“Não se martirize por causa de uma travessa de bacalhau, Anita! Se você quiser, eu prometo que fico vivo por mais um ano para que, no próximo aniversário, o jantar saia perfeito como você planejou! Mas eu só posso prometer de minha parte, porque a vida tem muita dificuldade em aceitar os nossos planos, porque aquilo que as pessoas chamam de roda da vida é, para bem falar a verdade, a roda dos desenganos. Você sabia disso? Sabia que, na maior parte do tempo, estamos completamente enganados sobre tudo? Sobre tudo! Estamos sim, Anita. Não sabemos nada.” 

Nessa época, Aurélio acordava muito cedo, planejava detalhadamente todo o seu dia e, em seguida, gozava com intensidade as surpresas que lhe deixavam cada vez mais próximo de uma ignorância completa.





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