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O QUE NUNCA HAVERÁ




O QUE NUNCA HAVERÁ 


Mestre Lin foi herdeiro da legitimidade de um dos maiores clãs de guerreiros da China. Os guerreiros de Wudan. Enquanto vivo, foi reconhecido como o mais notável mestre da nobre arte marcial chinesa, pois dominava técnicas de vários estilos, além de dominar técnicas secretas de outros clãs — que não se sabe ao certo como foram aprendidas por ele. Além disso, ele mesmo havia criado centenas de novas técnicas que revolucionaram os estudos do corpo, da mente e da natureza, sendo utilizadas na educação de crianças, monges, assassinos e príncipes.

Sua sabedoria indicou ainda novas possibilidades para um kung fu mais elevado, que, acreditava ele, seria encontrado pelos seus seguidores. Ainda hoje, séculos mais tarde, discípulos seus acalentam o sonho de alcançar seu nível de humanidade e, com saúde e sorte, o kung fu sonhado por Mestre Lin. 

Seus ensinamentos e métodos nunca foram registrados, embora sejam passados de geração em geração pelas escolas Wu-ten-lin, que congregam uma linhagem de discípulos diretos de Mestre Lin. Contudo, diversas publicações, no oriente e no ocidente, registram a sabedoria e os diálogos que Mestre Lin teve com seus alunos, com comerciantes, com amantes, com pessoas que cruzavam o seu caminho. Eis abaixo uma das minhas favoritas, de uma conversa com seu discípulo preferido, Lao.



Mestre Lin, Lao e a técnica do piso escorregadio 


- Mestre Lin, todos dizem que existem técnicas secretas de grande poder combativo e evasivo, e que você é o único homem vivo que as conhece. É verdade?
- Em parte.
- Como assim, em parte?
- Querido Lao, é verdade que conheço técnicas que nenhum outro homem vivo conhece. É verdade também que muitas delas são secretas, guardadas por clãs e casas de combate. Outras nem secretas são, apenas são desconhecidas por outros mestres.
- E o que não é verdade?
- Que essas técnicas detêm, em si mesmas, grande poder. Técnicas não têm poder.
- Eu sei.

Quando Mestre Lin já se retirava, certo de que o aluno havia entendido a lição, foi impedido por uma questão.


- Mestre Lin, é verdade que você domina a técnica de lutar sobre o piso escorregadio?
- Não. Não é verdade. E antes que você se aventure em outras arguições, querido Lao, adianto que tal técnica nunca existiu, nem existirá, ainda que muitos acreditem em sua realidade.
- Como você pode ter tanta certeza de algo que não existe, Mestre Lin?
- Técnicas são, acima de tudo, controle. E há coisas que não são controláveis, nem permitem ao homem o controle de si próprio. O piso escorregadio é uma dessas coisas.
- Não pode ser. Há técnicas para lutar envenenado, para lutar sem o próprio peso, para lutar sem respirar, para lutar sobre a água, para ressuscitar os mortos, para impedir o vento de soprar... não é possível que o piso escorregadio possa ser um empecilho dessa grandeza para as artes marciais.
- Mas é. Meu conselho é: piso escorregadio... fuja dele sempre que puder, querido Lao.
- Então você desconhece tal técnica?
- Desconheço.
- Mas pode ser que alguém a conheça.
- Não. É impossível, querido Lao.
- Mas e se algum guerreiro, o melhor de todos, conseguir desenvolver uma técnica para lutar em piso escorregadio?
- Impossível.
- Não pode ser impossível! Nada é impossível para o grande guerreiro!
- É impossível lutar com técnica sobre um piso escorregadio.
- Mas e se um dia você tivesse que lutar em um piso escorregadio? O que você faria?
- Lutaria com todas as minhas forças. Mas minha técnica seria inútil. Eu e o outro guerreiro estaríamos à mercê dessa força imprevisível.
- Não pode ser. Não me conformo. Já o vi fazer coisas que meus olhos insistiram em desmentir. Já o vi atravessar o rio Xu sem se molhar. Já o vi carregar maçãs, jarros e empilhados de palha sem sequer tocá-los. Por que você não cria então uma técnica para lutar em piso escorregadio?
- Porque é impossível. Só o tolo desafia o impossível.
- Pois eu acredito que, quando vier um kung fu mais elevado, mais poderoso, haverá um guerreiro capaz de criar uma técnica para lutar em piso escorregadio.
- Querido Lao, se você crê nisso, há beleza em seu coração. Mas tenho de adverti-lo: nunca haverá tal técnica.



Lao ficou conhecido como o mais sábio e poderoso guerreiro da linhagem de Mestre Lin. Dizem que, antes de morrer, Mestre Lin ensinou tudo o que sabia para Lao e anunciou que seria o discípulo ainda mais sábio e poderoso do que ele próprio. Depois da morte de Mestre Lin, Lao criou técnicas de sofisticação nunca pretendidas por nenhum guerreiro, mas morreu triste, pois entendera que o piso escorregadio era maior do que todas as forças da natureza.










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APRENDIZ

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APRENDIZ


Thomas viajou de Londres até Florença para um curso sobre História da Arte. Ficaria por um mês na cidade, esse era o plano: três semanas para o estudo, uma para o convidativo dolce far niente.

Encantou-se com o homem que o guiaria pelos livros e pelas ruas. Não se permitia desviar a atenção do italianíssimo mestre, que era de Verona, mas ainda que fosse de Roma, era como a própria cidade parlando, parlando, parlando! Falava sobre as formas, e Davi, e a Piazza della Signoria, e o Bargello, e a Galleria dell'Accademia, e técnicas, e Dante Alighieri, e La Cattedrale. Entremeava tanta arte com um pouco de história, as suas próprias, a sua própria, e contava lições descobertas anedotas. Contudo, havia ainda mais, pois explicava aos sedentos e oferecidos ouvintes o que sabia sobre mecânica, filologia romana, fórmulas químicas, a respeito da Copa do Mundo de 1990, os segredos íntimos do Cardeal Richelieu, as voltas da literatura russa, descrevia detalhadamente ritos de povos polinésios, as explosões solares, criticava Wittgenstein e toda a lógica, e ensinava sobre o preparo de paellas e pães de cevada.

Thomas não resistiu e lhe fez um elogio e uma pergunta, sobre o seu aprendizado, sobre ser um homem veramente interessante. Interessado, o mestre respondeu que era interessado na vida, nas coisas que estavam, e que cada pequeno saber era uma valiosa nuance de um afresco em seu interior, no teto de seu interior, como se ele tivesse uma abóbada, e inventou mais metáforas, mas não foi bem claro, foi mais poético. “Eu gosto de tudo que sei. Como quero saber, acabo por gostar. I can’t help it!” Não se arriscou a dizer sobre o que era inevitável — muito complicado — mas Thomas entendeu que não era uma opção: o interessar-se.

No final daquele dia, quando saíssem da Basilica di Santa Croce, Thomas convidaria Andrea, o mestre, para um café, mas o levaria a outro lugar, um calmo, onde pudesse se colocar em uma pose de significado, para que o outro se interessasse em aprendê-lo, prendê-lo, salvaguardá-lo para si. Depois da pose, mover-se-ia em gestos de sabedoria e nunca mais seria esquecido, seria narrado para outros discípulos, pela inteligência do mestre, espremido entre um algoritmo e uma letra hebraica.

Andrea aceitará o convite de seu aluno inglês, que lhe chamara a atenção antes que levantasse o olhar. Acompanhará a intenção, irá até o café, seguirá ao outro lugar. Ficará, em um momento lento, sem saber como agir, e fará perguntas que nada terão a ver com sua curiosidade, sem efeito. Em outra tentativa, despir-se-á, jogar-se-á sobre o corpo de seu aprendiz. Vir-lhe-á então o insight, porque se lembrará, por associação, de já ter feito perguntas vazias e de já ter se desnudado diante de tantas matérias, sempre sem efeito. Perceberá que, para ir adiante, para tomá-lo para si e gostar-lhe, terá de proceder como se aquele homem fosse um ponto. Retirar-se-á de seu corpo, vestir-se-á, e, por fim, dirá palavras sinceras e esperará a reação de Thomas.

Começarão um diálogo.

Andrea irá se assustar ao olhar para o rosto do outro, pois será remetido a uma expressão conhecida, mil vezes conhecida. Gozará da certeza e da segurança de mirar uma coisa nova tão entranhada de coisas antigas, e vislumbrará o aprendiz, apreendido, no afresco de sua imaginária abóbada, mais um adorno, uma pincelada, um homem, o primeiro e repetido homem a compor o seu teto interior.





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