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FLORES



FLORES


A pressa de sua caminhada não era por medo, já que era dia, era mais pelo incômodo de estar em uma vizinhança que era hostil ao povo árabe, de cujos traços e trajes era portador. Sua ida, ao bairro, era para pleitear o favor de um antigo patrão. A esperança lhe veio acesa, pois precisava de dinheiro para a saúde da filha mais velha e também para comer, beber e morar. Não foi possível, não o receberam bem. Sua vinda à Europa, vinte anos antes, fora também para buscar ajuda e asilo, que lhes foram dados, e desde então teve emprego e coisas — as coisas materiais — de que precisava. Entendeu que não deveria, por força da cultura ainda em processo de assimilação, exigir mais dos autóctones.

As passadas tinham a feiúra de quem fora rejeitado, porém o levaram ao portentoso e bem cuidado jardim na entrada do bairro. Na ida — vinda — não havia reparado nas flores, que beleza! A pobreza lhe negara desde muito tempo atrás a prerrogativa de enfeitar a vida, a casa. A esposa e as três filhas eram caprichosas, mas cumpriam a parcimônia exigida pelo pai para a sobrevivência da família.

O encontro com o jardim — não posso precisar o nome das flores brancas que lá estavam — fê-lo esquecer que era um árabe — cujo nome também me escapa neste momento — em terra bem ocidental. Ousou colher as flores, muitas as colheu, e arranjou-as em um ramalhete apertado nas mãos. Saiu dali, foi para longe, para onde pertencia.

No dia seguinte, a esposa Zahra e as três filhas o acompanharam no almoço, todas bem humoradas, a casa adornada pelas flores brancas vindas do reduto dos outros.

Respondeu à esposa: “Não houve risco! E se houvesse, eu as traria ainda aos montes! As flores são todas de Allah!”

Fez uma pausa.

“Assim também somos nós, são vocês, é essa casa! Se me fizerem culpado de roubar as flores, digo-lhes que não devem se preocupar com tão pouco, pois já lhes foi roubado o entendimento”.

Zahra, a esposa, agradeceu o marido pela coragem e pela consideração por ter visto as flores e se lembrado de casa.






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TORCEDOR




TORCEDOR



Durante a faculdade eu conheci o homem que viria a ser um dos meus grandes amigos: Giovani. Junto com ele, conheci sua família. Mas, antes disso, eu já sabia tudo sobre seus pais, irmãos, namorada, tios, vizinhos. Passeis cinco anos ouvindo-o narrar histórias, chorar problemas, pirraçar com os conflitos...

Aos poucos, quando ia conhecendo os personagens reais daquelas histórias, tinha mesmo que reconhecer o poder de Giovani de analisar as pessoas. Eu já sabia como se comportava cada um deles. Seu pai era mesmo um pianista de década de 70, preso na vida de um médico dos anos 90. Sua mãe ficava mesmo feliz, “como se a vida valesse a pena”, quando elogiavam sua casa. Ellen, sua namorada, era mesmo a serenidade que todos procuramos em um grande amor. O vizinho, Sr. Ernesto, tinha mesmo o olhar sedutor e um traquejo para os diálogos cruéis.

A única agradável surpresa que tive foi com relação a seu irmão caçula, Luca. Concordei com Giovani em quase tudo sobre ele: protegido ele era, disperso ele era, voluntarioso ele era. Porém, na tarde em que eu fiquei vendo filmes e jogando videogame com o Luca, que, à época, tinha 14 anos, vi outro rapaz. Giovani me havia advertido que seria impossível assistir o filme com o Luca, pois ele falava o tempo inteiro, e eu era muito chato com isso (aliás, eu descobri, depois, que nas histórias do Giovani eu era o “cidadão politicamente correto”).

Naquela tarde, Luca e eu vimos um filme sobre um casal improvável: de um lado, egoísmo, arrogância e medo; de outro, vontade e ternura. E foi dando certo, ainda que todos desacreditassem. E foi dando mais certo, ficando bonito, ficando como sonho bom. Mas como todo filme precisa de um nó, as coisas começaram a desandar. E quando o primeiro sinal de desencontro apareceu, Luca levantou-se da poltrona e gritou para o homem na tela: “não, não, não! Você vai estragar tudo desse jeito! Foi tão difícil chegar até aqui! Por favor... por favor, não faça isso... Você vai estragar tudo, cara... Filho da puta! Não acredito que você está fazendo isso! Isso é inacreditável! Estúpido!”.

Então ele olhou para mim, buscando concordância, e eu concordei, fazendo que sim com a cabeça.

— Eu não quero mais ver esse filme! Eu volto depois que acabar, ok?
— Ok. — disse eu — Sem problema.

Depois, quando subi ao seu quarto, ele estava jogando Nascar no videogame, dirigindo com toda violência possível. Quando me viu, parou o jogo.

— Desculpa não ter terminado o filme. É que eu não gosto quando as pessoas perdem a chance de ser feliz. Ainda mais assim, de tanta estupidez.

Aquele dia eu pensei: “É esse o homem que eu quero para mim”.








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BRIGA

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BRIGA





— O que você está fazendo aqui em cima?

— Nada, só dando um tempo...

— Só dando um tempo...?

— O quê?

— Nada.

— Fala o que você quer falar, Lúcia!

— Eu não tenho nada para falar... mas sei que você não está aqui só pra dar um tempo, eu conheço você. O que aconteceu?

— Eu briguei com o Ramón.

— Brigou com o Ramón?!

— É, briguei com o Ramón... que foi?

— “Que foi” é que você já notou como essas brigas com seu irmão têm se repetido?

— Não é culpa minha, ele que começa...

— Duda, eu não sou sua mãe, sou sua mulher. Não faz a mínima diferença para mim quem começou o quê. Eu só fico triste de ver você assim, chateado por conta desses desentendimentos com o Ramón... Não sei o que aconteceu! Vocês sempre se deram tão bem!

— Mas era diferente!

— O que era diferente, Duda?

— Tudo! Não tudo, mas a gente morava junto, saía junto e a gente sabia o que acontecia na vida um do outro. Agora o Ramón está cada vez mais estranho e eu sinto saudade do meu irmão, de como ele era. Entende?

— Entendo. Um pouco.

— Eu vou descer de novo. Mas vou ficar longe dele para não dar mais tumulto.

— Por que vocês brigaram?

— Nada.

— Duda...

— Porque o Ramón não ouve o que a gente fala! Quando eu estou discutindo com ele, ele simplesmente ignora meus argumentos porque ele sabe que eu estou certo! E fica fazendo piadinha ao invés de discutir como homem!

— Tira uma dúvida minha, Duda: sobre o que vocês estavam discutindo?

— Nós estávamos falando de outra coisa, nem lembro o que era, e aí o assunto foi mudando, e já estava lá o Ramón falando do São Paulo e que as novas contratações...

— Pelo amor de Deus, Duda! Deixa de ser ridículo!

— Não fui eu que entrei nesse assunto...

— Futebol, de novo?

— Futebol de novo sim!

— Há quanto tempo você e o Ramón são irmãos?

— Lúcia, a questão...

— Mais de 30 anos. E há quanto tempo ele torce pelo Palmeiras e você para o São Paulo?

— Eu sempre fui são-paulino!

— E ele sempre foi palmeirense, e vocês viviam tirando sarro um do outro, provocando, mas não tinha briga de verdade, não era essa xingação que agora vocês arrumam! Mas você pode anotar que não tem erro, é vocês começarem com essa história de Palmeiras e São Paulo que dá confusão! Só quem está perto é que vê como é patético!

— Você não entende!

— É claro que não entendo! Isso é absurdo!

— Você não entende...

— Eu vou descer, Duda. Acho melhor você dar um tempo aqui em cima mesmo!

— Não fala pro Ramón que eu estou aqui!

— Não vou me meter, Duda! Isso é entre você e seu irmão!

— Então pronto!

— Só acho que você deveria ser o irmão mais velho de verdade e mostrar um pouco de maturidade, porque está ridículo para todo mundo ficar assistindo, toda vez que a família se reúne, esse bate-boca que não tem nada a ver com futebol!

— Nada a ver?

— Nunca teve!

— Você não sabe o que está dizendo!

— Eu sei exatamente o que estou dizendo! E você também sabe o que eu estou dizendo, só não quer ouvir.

— Não quero mesmo! Pode descer! Aproveita e faz um aconselhamento psicológico com o Ramón, já que você sabe tudo sobre tudo, sempre! A conversa vai durar até o fim do mundo com dois sabichões! Fala para ele também...

— Duda, para! Eu não vou entrar nessa. Essa briga não é comigo. E também não é com o Ramón.

— Você não entende...

— Vê se não fica aqui a festa inteira... não vale a pena. Esfria um pouco a cabeça e depois você desce, ok? Ok... ? Duda?

— Ok.

— E nada de falar em futebol. Evita esse assunto.

— Ok. Nada de falar em futebol...





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ARRANJO

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ARRANJO


O que mais me excita nessa história é o fato de ela ser real. Na minha cidade, Juiz de Fora, litoral de Minas Gerais, todos a conhecem, mas poucos sabem dos detalhes que eu agora vou contar. Esses pormenores me foram confidenciados pelo próprio Vinícius, meu colega de trabalho há mais de cinco anos.

O Vinícius era muito tímido, quer dizer, ainda é muito tímido. Até hoje ele se admira com a ousadia que lhe rendeu essa boa história. Pois o Vinícius era um apaixonado nato. Quer dizer, é um apaixonado nato. Ele estava sempre de olho em alguém, de prontidão para viver seu grande amor. Mas sua vontade de outro homem não saía nunca de suas fantasias, pois não se arriscava a trocar uma palavra sequer com os homens por quem se apaixonava.

O que mais me diverte nessa história é que a inércia solitária do Vinícius foi interrompida por uma dica de horóscopo lida em voz alta por uma outra colega de trabalho. Dizia: “Virgem: você é um ser único e, por isso mesmo, o único responsável por sua felicidade. Seja corajoso e transforme seus sonhos em realidade. Palavra-chave: estratégia. Para ser alguém melhor: intuição. Dia favorável: quarta-feira.”

O Vinícius andava apaixonado por dois homens. Um deles era o Rômulo, ator de uma companhia de teatro amador da cidade, alvo também da cobiça de outros tantos. O Rômulo era alto, forte, taurino, traços napolitanos, cara de troglodita, mas um dos mais sensíveis homens para entender a humanidade, habilidade que o transformou em um grande ator. Era também professor de filosofia na universidade, o que aumentava sua popularidade e seu fã-clube. O outro era o Saulo, que era quase seu vizinho, pois alugara a casa em frente à do Vinícius para transformá-la em seu consultório odontológico. Tinham em comum a circunspeção, pois sempre que se cruzavam trocavam apenas breves sorrisos e olhares cordiais. O Saulo era pequeno, moreno, geminiano, e tinha olhos pretos que adiantavam suas maneiras gentis. O Vinícius fala que não acredita, nem nunca acreditou em horóscopo, mas que achou que os conselhos da revista poderiam lhe ser úteis. Quando eu perguntei a ele o dia em que ele decidiu agir, ele me respondeu: “Foi numa quarta-feira, mas isso não quer dizer nada!”

Todas as manhãs, o Saulo chegava bem cedo, antes da secretária, guardava o carro, voltava até o portão de entrada para apanhar a correspondência e, às vezes, as abria ali mesmo, no gramado em frente à casa. O Vinícius estava perfumado e com sua gravata preferida, e esperou ansiosamente enquanto o Saulo estacionava o carro. Acelerou o passo para que não perdesse a oportunidade.

“Olá, tudo bem?”
“Oi, tudo bem!”
“Você é o Dr. Saulo, não é?”, perguntou apontando para o letreiro do consultório.
“Sim, sou eu mesmo. Prazer.”, o Saulo estendeu a mão para cumprimentá-lo.
“Eu sou Vinícius, seu vizinho.”
“Eu sei, quer dizer, eu sempre o vejo por aqui. É a casa amarela, certo?”
“Isso.”
“Ok. Prazer em conhecê-lo, Vinícius.”
“O prazer é meu.”

O Vinícius me falou que ele nem acreditou quando, para impedir que a conversa acabasse ali, ele disse o que disse.

“Eu olho muito pra você!”
“Como!?”
“Eu quero dizer, eu sempre te vejo chegar e sair.”

O Saulo não disse nada.

“Sabe o que é? É que eu acho você um homem muito bonito e me sinto muito atraído por você. Eu sei que eu não te conheço, mas sabe quando você simplesmente confia nos seus instintos? Então, eu me interessei por você, mesmo assim, sem saber muito. Foi mais porque você é bonito mesmo, e está sempre tão bem vestido... Enfim, eu queria me apresentar, e bem... se você me der seu telefone eu posso te ligar e te convidar para sair. O que você acha?”

O Vinícius disse que quis se enfiar em um buraco depois de ter falado tão mal articuladamente o discurso que havia ensaiado com antecedência.

“Por que nós não fazemos o seguinte? O meu telefone é aquele que está no letreiro do consultório. Como você dever ter percebido, é aqui que eu passo a maior parte do meu dia. Mas também seria bom se você me desse o seu telefone, pra eu poder ligar pra você, acho melhor.”

“Ok.”
“Ok, então.”

O Saulo anotou o telefone do Vinícius na agenda do celular e entrou para o consultório.

O Vinícius ficou achando que tinha dado tudo errado e entendeu que aquela de “deixa que eu te ligo” era uma outra maneira de dizer “não liga pra mim”. Além disso, o Vinícius me disse que ficou pensando que, apesar da receptividade do Saulo, teve dúvidas se ele era mesmo gay, se estava levando aquilo na brincadeira, ou se só havia pedido o telefone dele porque não soube o que fazer quando foi pego de surpresa pelo vizinho maluco.

Na mesma quarta-feira, o Rômulo estreava em uma comédia da qual ele também era o diretor. O Vinícius pensou em desistir de seus planos depois do fiasco de sua conversa com o Saulo, mas como não tinha nada a perder, continuou firme no propósito. Depois da peça, esperou que os conhecidos e amigos da companhia cumprimentassem todo o elenco e, só então, se aproximou.

“Parabéns, o trabalho de vocês é impressionante!”
“Obrigado. Obrigado pela presença.” Era a resposta padrão do Rômulo para os anônimos.
“Eu nunca tinha visto você em uma comédia! Você foi ótimo!”
“Obrigado. Foi ótimo pra mim também fazer um papel diferente do que eu estou acostumado.”
“Rômulo, me perdoe a indiscrição, mas você tem namorada? Ou namorado?”
“Não.”, o Rômulo deixou transparecer seu embaraço.
“Eu pensei em convidar você para sair comigo qualquer dia desses, o que você acha?”

O Rômulo deu um sorriso, meio riso, um pouco sem graça, mas respondeu.

“Acho bom! Hoje eu vou sair para comemorar com o pessoal do grupo, mas amanhã, depois da peça, eu estou livre. É bom pra você?”
“É ótimo! É perfeito!”
“Até amanhã então!”
“Até amanhã! Meu nome é Vinícius.”
“Prazer, Vinícius!”

O que mais me intriga nessa história é que, quando o Vinícius a repete, ele utiliza exatamente as mesmas palavras para reproduzir os diálogos e descreve as cenas e os cenários do mesmo modo. Por exemplo, repete sempre o clichê “eu estava flutuando”, bem apropriado para descrever sua volta para casa. Mal conseguiu dormir de tanta agitação.

No dia seguinte, quinta-feira, após o espetáculo, o Vinícius e o Rômulo tomaram vinho rosé e conversaram no camarim, e, na coxia do teatro vazio, viveram sua primeira noite de amor; já era amor.

Na sexta-feira, dia seguinte, o Saulo bateu na porta da casa do Vinícius por volta das seis da tarde e, assim como o próprio Vinícius havia feito, venceu a timidez para confessar que também reparava no vizinho, e que o desejava, agora ainda mais. O Vinícius levou-o para o quarto, amou-o, também era merecedor, e dormiram até que o celular os acordasse, por volta da meia-noite, com a ligação do Rômulo

O que mais me fascina nessa história é a sorte, a falta de sorte, e a sorte ao mesmo tempo. Quando o Vinícius fantasiava suas transas e conquistas, nunca imaginava as coisas se complicando. Ele achava tão improvável a ideia de abordar e seduzir um homem por quem estava apaixonado, que não lhe passou pela cabeça o que faria se um deles correspondesse ao seu avanço, quanto mais dois deles. “Não foi uma estratégia, ou uma coisa que eu pensei muito claramente. Foi mais uma intuição.”

Pelo telefone, ele deu o endereço dele para o Rômulo, que em quinze minutos chegou à sua casa, surpreendendo-se ao ver que ele não estava sozinho.

Na sala, o Vinícius abriu o jogo.

“Primeiro de tudo eu quero falar que, até quarta-feira, eu vivia a mais monótona das vidas. Cada hora eu me apaixonava por um homem diferente, mesmo sem conhecê-lo, e gastava meu tempo fantasiando uma felicidade qualquer, ou uma foda bem sacana. Foi então que eu resolvi tomar uma atitude e tentar atrair os homens que realmente mexiam comigo. Você, Saulo, é um desses homens. E você, Rômulo, também. Na quarta-feira, eu decidi chamar o Saulo pra sair, mas entendi que ele não estava interessado. De noite, depois da peça, tentei minha sorte com o Rômulo, e deu certo. Eu não sabia que você iria aparecer aqui na minha casa. Nem que você iria me ligar bem na hora que ele estivesse aqui.”

Nem o Saulo, nem o Rômulo fizeram qualquer comentário, mas ficaram visivelmente hesitantes

“Eu não quero parecer egoísta, porque eu não sou, mas eu sonhei tanto com vocês dois, que não queria desistir agora. Nem de você, nem de você. Então eu tive essa ideia, de repente: e se eu namorasse os dois? Ou melhor: se nós três nos namorássemos? Eu sei que parece loucura, mas eu tenho certeza que vocês vão gostar um do outro, tenho certeza! Todo mundo sabe que ninguém tem tesão em um cara só, e às vezes essa pode ser uma maneira de termos uma relação mais legal, entendem? Com mais satisfação! Bem, isso também não é importante agora, o que eu queria dizer, o que eu quero mesmo é conhecer vocês melhor, e eu não quero abrir mão do que pode acontecer daqui pra frente.”

Não foi só isso que o Vinícius falou naquela noite, falou mais coisas, coisas para persuadi-los. O Rômulo e o Saulo também fizeram suas considerações. No domingo, almoçaram juntos, os três, e decidiram levar adiante a ideia do Vinícius.

O que eu mais gosto de contar sobre essa história é o que vem a partir de agora.

Oito meses depois de decidirem que iriam namorar a três, o Vinícius, o Rômulo e o Saulo mudaram-se para um apartamento de quatro quartos, com bastante espaço para abrigar a família toda. Fizeram uma espécie de open house, e os amigos ajudaram com presentes para decorar e aparelhar o novo lar. Houve quem achasse estranho no começo, mas os três se tornaram tão amigos e tão amantes que era muito natural que quisessem morar juntos. Só vendo os três juntos para entender.

O Vinícius me explicou, isso nem todo mundo sabe, que eles criaram um código bem simples para não se desentenderem quanto ao sexo. Na maioria das vezes, quando estavam os três juntos, transavam juntos, a não ser que alguém não estivesse afim, ou que alguém manifestasse a clara vontade de estar com apenas um dos parceiros. Para que chegassem nesse nível de entendimento foi necessário que fizessem um pacto anti-vaidade e anti-dor-de-cotovelo. Quando estavam a dois, havia duas maneiras de dizer ao que não estava presente que ele seria bem-vindo na transa quando chegasse: deixar a porta do quarto aberta, ou transar no quarto dele. Essa segunda opção era quase um imperativo, que todos se alegravam em corresponder. Caso a porta do quarto estivesse fechada, nada de se intrometer no que já estivesse rolando.

O que mais me acrescenta nessa história é que o Vinícius me explicava que, apesar das regras, a dinâmica tinha seus contratempos, mal-entendidos e situações inesperadas. Acontecia de alguém desistir da transa no meio, ou de pedir “por favor” pra não ficar de fora porque estava muito excitado, ou de fechar a porta do quarto alheio por causa do barulho, ou de transferir a responsabilidade para o outro namorado: “Espera o Saulo chegar, tô cansado hoje.” Contou-me também sobre as dificuldades de se discutir um relacionamento a três, sobre argumentar contra duas opiniões ao mesmo tempo, sobre como a sina de ser um e se sentir só é sempre a mesma coisa. O Vinícius sempre matava minha curiosidade de saber sobre como é ter o dobro de sogros, sobre as comemorações dos aniversários, sobre o sexo a três. Ele gostava de me explicar como funcionava esse casamento tão sólido, de como estar em três parecia mais equilibrado e óbvio, como é um banco de três pernas.

Eu, como convivi muitos anos com eles, mais com o Vinícius, passei a acreditar naquela formação: três para amar, três para transar, três para dividir as contas, três para os momentos de aflição, três para imaginar o futuro, três para tudo.

O que mais me embaraça nessa história é que ela não acaba no três. Há uns dois anos atrás, o Vinícius me contou que ele, o Rômulo e o Saulo se apaixonaram por mais um homem. O felizardo era o dono da livraria da qual eram clientes, Tiago, canceriano. O Tiago é um dos homens mais bonitos e desejáveis que eu já conheci. Começaram a chamá-lo para algumas transas, para algumas idas ao cinema, para conversar. Todos concordaram que deveriam fazer o convite e, desde então, o quarto quarto é ocupado pelo Tiago, que levou um bom tempo para se adaptar aos três homens a quem aprendeu a amar.

Naquele ano, o Vinícius vivia me contando histórias hilárias, e outras meio melindrosas, de como os três fizeram para incorporar mais um no relacionamento, porém, eu só conseguia ouvir a mesma mensagem. Apesar de todas as curvas da narrativa do Vinícius, eu só era capaz de pensar em como eram habilidosos, os quatro, para levar aquela experiência adiante com um saldo tão positivo, com tanta satisfação para todos. Eu pensava tanto sobre aquilo que, aos poucos, fui me apaixonando por ele, o Vinícius, mas também pelo Rômulo, pelo Saulo e pelo Tiago. Às vezes, eu ainda lamento por não haver um quinto quarto no apartamento.

Hoje meu horóscopo diz assim: “Leão: procure abrigo entre aqueles que você admira e não deixe de conversar com eles sobre os seus sentimentos mais íntimos. Evite ficar sozinho ou pensando sobre a solidão. Palavra-chave: adicionar. Para ser alguém melhor: coragem. Dia favorável: segunda-feira.”

O que mais me convida a essa história é que ela ainda não acabou.

Hoje é segunda-feira.





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BRINDE

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BRINDE


“Eu gostaria de propor um brinde! Um brinde a ele que é o motivo dessa nossa nem tão modesta reunião de família e, é claro, de queridos amigos.

“Mas antes de brindar à sua saúde, eu gostaria de contar um pouco da minha história e da história de meu genro, Cristiano. Há mais de 25 anos atrás, minha única filha, Amália, apareceu-me em casa com um rapaz franzino e muito bem vestido. Obviamente, ela não me contou quais eram suas intenções, dizendo-me que era apenas um amigo. Os dois foram ao cinema, à matinê e voltaram antes de ser servido o jantar. O rapaz recusou o convite para cear conosco, como era de bom tom, mas antes de ir para casa, pediu-me um momento para ter um particular. Longe de Amália e de sua mãe, que foram tomadas de um nervosismo incomum ao pedido do rapaz, fui informado de suas intenções com minha filha. O rapaz adiantou-me que não sabia se o sentimento era recíproco, mas que não gostaria de frequentar minha casa se eu não soubesse da verdadeira natureza de seus sentimentos por minha filha.

“Já naquele dia nascia minha admiração pelo jovem Cristiano! É verdade. Eu percebi que estava diante de mim um rapaz educado e de boa índole, com uma inclinação natural para se fazer um grande homem. Durante os três anos em que cortejou e namorou minha filha, Cristiano sempre se mostrou interessado em nossa família e em nossos valores. Por vezes, mesmo na ausência de Amália, vinha visitar-me e nos dispúnhamos a boas horas de conversas saudáveis e instrutivas. Foi com emoção e, admito, acariciado pela própria vaidade, que recebi a notícia de que Cristiano também seguiria a carreira jurídica, no que pude ver claramente minha influência.

“Depois do casamento dos dois apaixonados, nossa amizade apenas ganhou mais profundeza e intensidade. No primeiro ano de casados, Cristiano e Amália moraram junto conosco, momento em que pude também lhe ser conselheiro nas questões maritais. Mesmo depois da mudança do casal para outra vizinhança, nosso laço sincero de companheirismo não se afrouxou. Pelo contrário, à morte do inestimável Sr. Severino, pai do meu querido genro, senti-me incumbido de zelar por ele como por um filho.

“Como se não bastasse minha admiração pelo homem que havia agregado tanto valor à nossa família, passei então a admirar o profissional. O advogado Cristiano muito cedo impressionou a todos com sua disciplina no trabalho e sua inteligência apurada, sempre com soluções precisas e inusitadas, mesmo nos casos mais difíceis. Com seu talento, deu prestígio ao escritório em que trabalhávamos e logo foi feito sócio, fazendo justiça aos seus méritos. Se posso lhe dizer alguma coisa hoje, meu genro, digo-lhe humildemente que o discípulo superou seu mestre.

“E lamento que só o tenha visto ser pai depois de já ter criado minha filha, pois o vendo em sua relação carinhosa com meus netos, aprendi também sobre a completude de sua sabedoria, habilidoso e incansável em sua crença de educar com firmeza e amabilidade, exemplo a ser seguido por qualquer pai que se preza. E sei que falo por todos nós quando o homenageio com essas palavras, pois desconheço, Cristiano, um homem que goze de tamanha apreciação de familiares, amigos e de outros tantos do que você, meu genro, do qual tenho orgulho de dizer que sou aparentado. Digo ainda mais, pois agora posso compreender que, desde o momento em que nos conhecemos, eu já estava sendo apresentado a um vínculo de natureza especial, um vínculo que é capaz de unir dois homens pela eternidade.

“E por fim, pedindo a todos as devidas desculpas por delongar nossa espera pelo jantar e também pelo discurso contaminado da inevitável formalidade dos advogados, saúdo esse grande homem, esse exemplo de homem, Cristiano, meu genro, meu amigo, meu filho!

“Saúde!”





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UMA DESSAS COISAS

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UMA DESSAS COISAS


Fazer amigos na velhice é uma dádiva, uma recompensa para os que conseguem permanecer vivos por tanto tempo e manter um coração aberto.

Edgar Torres era engenheiro, mas já não trabalhava tanto como no passado. A experiência e o renome, no entanto, ainda lhe requisitavam para palestras e consultorias. Há alguns anos fora convidado para ser o preletor na abertura do Congresso Nacional de Engenharia Elétrica, sua especialidade, na cidade de Belo Horizonte. Para acompanhá-lo na viagem, levou a esposa, Nancy, e sua cunhada, Nadir.

Para gerenciar sua estadia na capital mineira, foi designado um estudante de engenharia elétrica da UFMG, Natan Flores. O rapaz, cinquenta anos mais novo, era seu cicerone e secretário, responsável por organizar a venda de seus livros, fazer reservas nos restaurantes, avisar sua esposa sobre os itinerários, apresentar-lhe os outros congressistas de destaque e carregar sua pasta.

Foi Natan quem recebeu a ligação do hotel, pois era seu o contato que constava na ficha cadastral. As irmãs Nancy e Nadir haviam sido atropeladas por um ônibus, não resistindo ao acidente. Natan desligou o telefone atordoado, pensando em qual a melhor hora, lugar e mensageiro para tal notícia. Em alguns minutos decidiu que a hora era agora, que o lugar era onde estavam e que ele seria o portador do aviso de morte.

Interrompeu Edgar em uma conversa e, particularmente, contou-lhe o ocorrido. As consecutivas perguntas que Edgar lhe fazia a respeito do ocorrido iam sendo respondidas com prontidão, ainda que a resposta fosse “não sei”. O momento do choque, para ambos, ainda levaria alguns anos para passar.

Natan ouviu o pouco que Edgar tinha a dizer naquele momento, mas o suficiente para planejar os próximos dias. Conversou com os organizadores do congresso e com os amigos de Edgar presentes no evento. Ia à frente, resolvendo questões burocráticas no IML, na funerária e no hotel. Estava ao lado de Edgar quando este fez a ligação para o único filho. Natan encarregou-se do encaminhamento dos corpos, comprou as passagens aéreas e seguiu com Edgar até São Paulo. Procurou hospedagem nas proximidades da casa de Edgar e assistiu a família nos acertos do funeral e fazendo companhia ao viúvo. Ficou uma semana por lá.

Um mês depois, recebeu o convite de Edgar, que gostaria de recebê-lo em um feriado prolongado em sua casa. Natan desmarcou a viagem com os colegas e foi ao encontro de Edgar. Os quatro dias programados transformaram-se em dez, pois Natan refez sua agenda para esticar sua estadia. Nesse tempo, conversaram sobre física, sobre telecomunicações e sobre pesquisas em novas fontes de energia. Em outros momentos, falaram sobre a morte, e, em outros, sobre as perdas. Natan instalou novos programas no computador de Edgar e jantaram juntos em um restaurante de comida nordestina ao som de uma banda de forró, e essa foi uma noite divertida. Caminhavam pelas manhãs, ficavam em aprazível silêncio por longas horas; Edgar deu alguns livros de presente para Natan e deixou-o cozinhar no último dia.

Entre as bastantes trocas que fizeram, generosos com seu tempo e com seus sentimentos, Edgar e Natan passaram também pelas palavras de gratidão e de consolo, que não precisavam ser muitas, pois eram capazes de dizer mais que o desejado em poucas tentativas. A nova amizade nascia sólida, já que não havia outra configuração possível.

Trocavam e-mails diariamente, ligavam-se para comentar o futebol ou o jornal, compartilhavam seus trabalhos e leituras. Voavam constantemente entre São Paulo e Belo Horizonte.

As coisas que acontecem, os obstáculos, a solidão, a solidariedade; essas coisas são como flechas lançadas por um arqueiro inexistente; flechas que só encontram seu alvo depois de fincá-los. Alguns dizem que foi a morte que os aproximou, mas isso não seria justo nem com a morte nem com os amigos. Foi a vida.





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ENGANO

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ENGANO 


Aurélio sobreviveu a uma escarlatina no seu primeiro ano de vida, quando todos acharam que ele não vingaria. Um ano após o susto, era impossível imaginar criança mais saudável e mais bem desenvolvida. Dessa época, Aurélio não se lembra. 

Quando tinha 4 anos, Aurélio descobriu aliviado que “fazer nebulização” não tinha nada a ver com ser cozinhado e servido como uma leitoa, o que obviamente não era intenção de seus pais. No ano que se seguiu, foi inevitável para Aurélio acumular outros muitos significados distorcidos e um saldo expressivo de alívios e decepções. Nessa época, não sabia o que era “semana que vem” nem “semana passada”, mas esperava ansiosamente a chegada do Coelhinho da Páscoa. 

Quando tinha 9 anos, Aurélio pensou que seu pai cedo ou tarde descobriria que havia sido ele o responsável pelo rasgo no estofado do carro. Enganou-se também, quando, um ano depois, confessou sua culpa, achando que o pai relevaria o malfeito e a omissão. Nessa época, tinha medo de ficar trancado no quarto, dos valentões da escola e de Deus. 

Aos 16 anos, Aurélio passou um mês planejando viajar com os colegas de turma, mas o passeio ao parque nacional nunca aconteceu. Um ano mais tarde, acalentou a esperança de ser amado por sua professora de francês, mas ela nem sequer lembrava o seu primeiro nome. Nessa época, gostava de meninas, de meninos e de filmes de sacanagem. 

Aos 25 anos, Aurélio desistiu da carreira de professor e voltou à universidade para estudar Medicina, esperançoso de que essa profissão fosse lhe dar mais recompensas do que a outra. Contudo, antes de completar um ano de estudos, abandonou a faculdade e voltou a lecionar. Nessa época, acreditava na democracia, na esquerda e nas histórias que os amigos lhe contavam quando voltavam de viagem. 

Seu primeiro filho nasceu quando tinha 36 anos, e Aurélio, em uma noite de satisfação plena, ouviu Ella Fitzgerald e tomou uísque, e não teve dúvidas de que seria o cabeça de uma família feliz e sadia. Depois de um ano, estava sozinho com o filho e precisava pedir ajuda para lidar com o menino e consigo mesmo. Nessa época, tinha dificuldades para dormir, para pagar as contas e para acreditar. 

Em seu aniversário de 49 anos, Aurélio prometeu à sua segunda esposa que venderia o carro que já havia comprado há mais de uma década. Um ano mais tarde, esse mesmo carro foi roubado em frente à portaria do condomínio em que residia. Nessa época, orgulhava-se de seu sucesso profissional, orgulhava-se da inteligência do filho e das declarações de amor que escrevia para a mulher. 

Com 64 anos, Aurélio olhou para o teto e viu o lustre como uma bola de fogo incandescente e em seguida a dor lhe tirou a consciência. Um ano após o infarto, estava correndo ao redor da lagoa, mesmo que nunca tivesse praticado esporte em toda sua vida. Nessa época, desistiu de assistir jogos de futebol na televisão, de tentar ser amigo de seus alunos e de comprar uma casa na praia. 

Tornou-se bisavô aos 81 anos, mas tinha receios de não ver o filho de seu neto preferido, pois estava muito doente e se encontraria com toda a família somente quando viessem para o Natal. Sua ansiedade durou quase um ano inteiro, mas, em meados de dezembro, estava assentado em sua poltrona com o bebê, que também se chamava Aurélio. Nessa época, sentia-se confortável na companhia de desconhecidos, confortável consigo mesmo, confortável mesmo no tédio. 

A festa que celebrou seus 100 anos de vida foi realizada no Haras Suíça, lugar no qual nunca imaginou que fosse colocar os pés. Um ano depois, tomando café da manhã, Aurélio se perguntou se viveria ainda muito tempo. Pôs sua vida, sua história, sob o escrutínio da memória e conseguiu contar infinidades de fatos, de eventos, de acontecimentos que se entrelaçavam com perfeição, de maneiras improváveis e inusitadas. 

Na noite daquele mesmo dia, a família reuniu-se mais uma vez para celebrar seu aniversário. A esposa de um de seus netos, com quem ele morava, apressava-se aflita para que o jantar saísse conforme o planejado. Porém, o assado de bacalhau, o prato principal da noite, escorregou-lhe das mãos pouco antes de chegar à mesa, misturando-se aos cacos de vidro e ao desapontamento da anfitriã. Aurélio, que já andava com um pouco de dificuldade, fez menção de se levantar para ajudá-la a limpar a bagunça, mas todos intervieram para que ele não o fizesse. Enquanto os outros davam conta de dar conta do imprevisto, Aurélio tentava consolar a esposa do neto, a quem tratava como uma filha. 

“Não se martirize por causa de uma travessa de bacalhau, Anita! Se você quiser, eu prometo que fico vivo por mais um ano para que, no próximo aniversário, o jantar saia perfeito como você planejou! Mas eu só posso prometer de minha parte, porque a vida tem muita dificuldade em aceitar os nossos planos, porque aquilo que as pessoas chamam de roda da vida é, para bem falar a verdade, a roda dos desenganos. Você sabia disso? Sabia que, na maior parte do tempo, estamos completamente enganados sobre tudo? Sobre tudo! Estamos sim, Anita. Não sabemos nada.” 

Nessa época, Aurélio acordava muito cedo, planejava detalhadamente todo o seu dia e, em seguida, gozava com intensidade as surpresas que lhe deixavam cada vez mais próximo de uma ignorância completa.





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