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HERÓI

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HERÓI 


Ele achou que me surpreenderia, mas não. Quando ele veio se juntar a mim no banho, eu já o esperava. Eu realmente gostava de transar no banho, especialmente pela manhã, e ele logo aprendeu o bê-á-bá dos meus agrados. Eu de alguma forma já o havia letrado.

Chamava-se Guilherme, mas poderia ser qualquer palavra. Como tantos outros, Guilherme pensava encenar o personagem por quem eu me apaixonaria, aquele um a quem poderia confiar sua vulnerabilidade. Não posso negar que era um dos melhores atores; suspeito que ele sabia bem de si mesmo, pois se deslocava muito rapidamente para se antecipar aos meus caprichos. Para o sexo, movia-se no tempo certo: esperava na hora de esperar, avançava na hora de avançar, pedia e oferecia, sempre atento ao meu corpo. Tinha um mapa de mim: mãos, mamilos, ouvido. Quando me buscava pelo ouvido – com perguntas e respostas – acertava! Queria saber do seu desejo, mas perguntava sobre o meu. Respondia-se, mas a recompensa vinha para mim. Seja feita a minha vontade! O prazer que me dava, ou melhor, que me fiava, era o suficiente para o meu afeto, mas pouquíssimo para o meu desejo... 

Mas, olha, como era lindo o tal do Guilherme! Lindo, lindo! Fingia não saber por que razão ficava tão feliz ao meu lado, lembrava-me do quanto admirava meu senso de humor e fazia questão de esperar o meu olhar alcançar o seu, já armado com contentamento. Precioso! Uma ternura esse Guilherme! Excitava-se com meu cheiro, mandava mensagens espirituosas, me ligava à noite para dizer “sweet dreams” e, a cada dúzia de beijos, dos bons beijos, aproximava-se com o óbvio: “seu beijo é muito bom!”. É claro que era bom, Guilherme! Você é bom! Você é uma graça! 

“Me abraça!”, pediu-me, pedia-me.

Abraçar é bom também, eu é que não era muito bom com isso. Porém, parecia-me um dos poucos pedidos maduros – como fruta – do Guilherme. Por isso eu gostava. Apertei-o tanto nos abraços que cheguei a acreditar que nunca mais esqueceria seu gosto. Calma, nem tanto... 

Se eu não caísse sempre nos mesmos buracos escondidos entre o que digo (o que penso), eu poderia dizer ao Guilherme, em minha própria distração: “Me abraça você!” 

Eu guardaria você, Guilherme, se você me abraçasse. Eu manteria você aquecido se você fosse forte, se você descobrisse a cura do câncer, se você me pedisse para fechar os olhos e confiar em você. Mas você não voa, não conquista o mundo, não lê minha mente! Se a lesse, leria que também eu quero um herói. Que estou também caindo, mas que não sei clamar por socorro. Ao contrário, anuncio meu poder: sou feito de certezas, de lucros, de inimigos, de asas, de adamantium. Eu sou o poder! 

Você me ofereceu um suco. Eu aceitei. Você quis saber: 

“Suco de quê?” 

“De criptonita!”, respondi. 

Até investi em alguma paciência, esperando que você me entendesse e me atendesse, mas você não captou a mensagem. Ou captou. Não saberei, pois desisti de você, que até deu um pouco de andamento à minha vida, mas nada acrescentou à minha loucura. Eu poderia ter dito mais... mas não posso. Esse é o máximo. Se eu for além, me descolo por dentro, colo a vítima no herói. Quem quiser, é o que dou: um caminho. Isso é tudo.

E um pouco mais, vou prolongar a conversa. E se nós combinássemos assim: eu o abraço nas segundas, quartas e sextas, e você me abraça nas terças, quintas e sábados? E se eu fizesse tal proposta e você, Guilherme, ao invés de perguntar pelo Domingo, me viesse com essa contraproposta: “E se nos abraçássemos todos os dias, um ao outro?”. 

Ah, Guilherme! Se você brincasse assim com as palavras, você seria o meu herói. Então eu poderia me safar dos homens, dos nomes dos homens. Eu ficaria mesmo surpreso quando você se juntasse a mim sob o chuveiro, me quedaria suspenso, sem saber o que pensar, por alguns instantes: eu iria cair, maduro, mas sem morrer. 





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