GRAFITE

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GRAFITE


São Paulo havia se tornado um ponto de convergência do olhar dos mais antenados. Política, ciência, religião, entretenimento, dinheiro. Em 2028, podia-se afirmar com uma margem mínima de erro que em cada outra cidade do mundo havia um coração, pelo menos um, sedento de estar na capital do mundo.

Benjamim Machado, governador do município, gozava de uma ótima reputação ao redor do globo, e alguns suplementos de economia e negócios comparavam seu poder de influência ao do presidente do Brasil himself. Em seus oito anos no poder, Benjamim impressionou a todos com sua versatilidade para administrar projetos e imprevistos das mais diversas naturezas. Logo que assumiu o governo do município, reuniu-se com sua equipe de prefeitos e secretários e tratou de ganhar a simpatia e o apoio de todos. Investiu pesado em salários e tecnologia a fim de aparatar o aparelho governamental com as melhores mentes e ferramentas. Destacou-se publicamente por suas habilidades de lidar com a imprensa e, sem dúvida, de organizar sua agenda, pois era um político onipresente: estava em congressos, batizados, reuniões deliberativas do partido, peças de teatro, grupos de estudo, organizações não governamentais, jantares em família e, pode parecer incrível, comparecia a todos os seus compromissos de trabalho.

Estar nas graças de Benjamim Machado garantia a qualquer cidadão um status diferenciado. Sua secretária pessoal vivia lhe dizendo que um dia confeccionaria um broche com os seguintes dizeres: “Benjamim Machado sabe quem eu sou!” Ele ria do bom humor da secretária, a vaidade às vezes é engraçada.

Emílio Leite era um desses agraciados. Era o Secretário para Manutenção da Ordem Pública, que não era o mais importante dos cargos, mas seu bom relacionamento com Benjamim, que transcendia o campo profissional, fazia-lhe alvo da admiração e da inveja dos mais ambiciosos. Como Benjamim não era casado, nem tinha irmãos ou primos mais chegados, era sempre carente de companhias para eventos sociais, razão pela qual Emílio tornou-se figura de destaque, pois sempre acompanhava seu chefe nessas ocasiões. Ao apresentar seu subordinado, Benjamim não dispensava apostos elogiosos: “Este é Emílio Leite, Secretário para Manutenção da Ordem Pública, responsável pelos grandes avanços feitos para o bem-estar dos paulistanos nos últimos anos, um grande amigo meu”. Às vezes tocava na questão, no que viria a ser a delicada questão, mas que antes era apenas outra forma de acariciar o ego de Emílio. “Ele é também o responsável por limpar nossas ruas e monumentos. Quem poderia imaginar que São Paulo não teria mais pichações? Pois este homem não só imaginou esse cenário como o transformou em realidade. É a competência em pessoa!”

A campanha para dar cabo das pichações foi uma das primeiras ideias que Benjamim prontamente assumiu quando se tornou governador. Para ele, a empreitada sugerida por Emílio seria uma ótima forma de relembrar a todos os habitantes da cidade, diariamente, da força de sua obstinação. Para obter êxito nessa façanha, Emílio recebeu carta branca para mobilizar o poder legislativo, o poder judiciário, a polícia militar, a polícia civil, a associação comercial, o serviço de fiscalização, o departamento de limpeza pública e, principalmente, ficou subentendido para todos que as ordens dadas por Emílio representavam a vontade do governador. Em dois anos de esforços contumazes, novas leis foram criadas, muitas sugestões ouvidas, muitos protestos ignorados. Pichadores receberam suas sentenças, e as ONG’s mais bem intencionadas ganharam seus prêmios. Em dois anos, não havia pichações em São Paulo. Tudo limpo: pontes, prédios, portas, passarelas, placas, propriedades públicas ou privadas; tudo limpo!

“(...) E por essa conquista, essa conquista significativa não só para o nosso bem-estar, mas que nos serve como exemplo daquilo que pode ser realizado quando se tem vontade política, a Câmara Municipal e o Conselho Superior de Administração convidam o Sr. Emílio de Souza Leite para receber o título de Cidadão Benemérito da Cidade de São Paulo.”

O Arquivo Histórico do Município até publicou, em 2042, mais de uma década após os mandatos de Benjamim Machado, um material com fotos e vídeos do período em que a cidade permanecera limpa. Além do rico conteúdo em imagens, o produto disponível para vendas continha um livreto que narrava a campanha de Benjamim e Emílio – do começo ao fim.

Algumas semanas após aquela gloriosa noite em que foi laureado com o título de Cidadão Benemérito, quando Benjamim ainda era governador, Emílio Leite recebeu uma ligação alarmada de um dos funcionários de seu gabinete, informando-lhe sobre uma pichação no obelisco do Ibirapuera.

Estou aqui?”
“É, só isso mesmo. Mas tem uma exclamação no final.”
Estou aqui com uma exclamação?”
“É.”
“E a letra, o estilo? É de alguém conhecido?”
“Não. Na verdade é muito simples, bem amador. Poderia ter sido qualquer iniciante.”
“Chamou muita atenção?”
“Muita. Era muito grande. Mas eu já tomei todas as providências.”

Imediatamente foram acionados os responsáveis pela limpeza e pela investigação do delito. Contudo, só os primeiros obtiveram sucesso em sua missão.De posse das fotos feitas pelo seu pessoal, Emílio tentava explicar a situação a Benjamim.

“Foi só esse caso isolado.” argumentou Emílio, com o claro objetivo de não super-dimensionar o problema.
“Mas o que isso significa? ‘Estou aqui!’ É uma mensagem? É uma ameaça? Provocação?”
“Eu acho que pode ter a ver mais com uma resistência dos pichadores... não acho que tenha alguma conotação política mais grave.”
“É verdade. Isso parece coisa de baderneiro, de rebelde!”
“Sem dúvida.”

A conversa foi encerrada não sem alguma reticência. Nas semanas que se seguiram, Emílio experimentou dias de ansiedade e noites de insônia. Apesar da incisiva vigilância e dos avanços nas investigações, apareceram outras pichações como aquela primeira. No Masp, no Viaduto do Chá, na Catedral da Sé, na Estação da Luz, no Teatro Municipal, no Intervalo, no Pacaembu. Em pontos turísticos, em rotas conhecidas, em enormes letras rabiscadas com spray preto: Estou aqui!

“Como não descobriram ainda?”, Benjamim pressionava Emílio.
“Não descobriram.”
“Mas é o mesmo pichador?”
“Sobre isso não há dúvida. É o mesmo traço, o mesmo spray.”
“Isso é ridículo! Eliminamos milhares de pichadores dessa cidade e agora um espertalhão está fazendo todo mundo de idiota! Não é possível que não possam descobrir onde foi vendido o spray, ou que nenhuma câmera de segurança tenha imagens do momento da pichação! Para ser sincero, é impossível que, com tanta vigilância, ele tenha conseguido pichar justamente os lugares mais bem guardados!”
“Ele dá conta de tudo! Câmeras, seguranças, vestígios...”, Emílio admitia com um pouco de relutância a maestria do meliante.

Os esforços na busca do tal pichador continuaram, sem sucesso, por longos oito meses. Enquanto isso, a solução foi deixar um time de limpeza sempre de prontidão para desfazer o mal-feito. O que não foi possível de controlar foi a repercussão de toda a história na mídia e nas conversas informais.

“Você sabe o prejuízo político dessas pichações? Sabe o prejuízo político da sua incompetência, Emílio?”, as palavras de Benjamim tinham a intenção de feri-lo.
“Eu sei. Nós não desistimos de encontrar o pichador e...”
“A quem você está enganando, Emílio? O cara está fazendo gato e sapato de você e de toda a sua equipe, não está vendo?”

É claro que Emílio estava vendo. Viu também sua relação com Benjamim se desgastar a ponto de não se falarem nem nos encontros do governador com os prefeitos e secretários. Havia dias que acordava com raiva do pichador misterioso, com raiva de si mesmo, com raiva de Benjamim. Quando era ignorado por todos, que reproduziam o comportamento do governador, tinha vontade de gritar: Estou aqui! Sentia-se até um pouco vingado por aquele que transformara sua vida no inferno com aquelas palavras. Por fim, não aguentou tanta pressão, renunciando a seu cargo e também ao seu prestígio.

Menos de um mês após entregar sua carta de renúncia, Emílio foi acordado por seu telefone pessoal, que soava o toque reservado apenas para o governador. Não estava enganado, era mesmo Benjamim Machado que o chamava.

“Emílio?”
“Sim, sou eu. Algum problema?”
“Você pode vir aqui em casa?”
“Agora?”, Emílio estranhou o pedido feito às cinco da manhã.
“Se for possível.”

Emílio apressou-se em trocar de roupa e dirigiu em disparada rumo à casa de Benjamim. O outro já o esperava e, ao ouvir o motor do carro em frente à casa, abriu o portão da garagem para que Emílio entrasse. Os dois se cumprimentaram e, sem explicar muito, Benjamim conduziu Emílio até os fundos, onde ficavam a área de lazer, a quadra de tênis e a piscina.

Logo que chegaram ao deck da piscina, Emílio pôde entender o chamado do governador. No grande muro que separava sua propriedade da conseguinte, no enorme muro de pedras cinzas, havia um lírio amarelo. Ou melhor, havia sido pintado um lírio amarelo, com suas variações de tons e outros detalhes feitos em verde, preto e alaranjado. Se Emílio não conhecesse bem a casa e o gosto de Benjamim, poderia jurar que ele mesmo encomendara o serviço a um profissional.

“Desde quando está aí?”
“Foi feito durante a madrugada. Quando eu cheguei, às onze, não estava aí.”
“Acho que devemos chamar a polícia”, Emílio já empunhava o telefone.
“Não! Acho melhor não!”

Benjamim não precisou explicar a Emílio para que ele entendesse que chamar a atenção para o lírio amarelo no muro, naquele momento, era um exemplo da gestação de mais um possível prejuízo político. Depois de algum silêncio, cada um pensando no que fazer, Benjamim surpreendeu Emílio com sua pergunta.

“Você achou bonito?”
“O quê?”
“O lírio? Você não achou bonito?”

Emílio pensou de imediato que a pergunta poderia ser um teste, mas sua desconfiança foi se dissipando à medida que via Benjamim mudando a cabeça de posição para melhor apreciar a pintura.

“Não se pode dizer que é o trabalho de um amador...”, respondeu Emílio.
“Eu achei esplêndido!”
“Definitivamente não é o trabalho de um amador.”, ratificou Emílio.
“Como se chama essa técnica mesmo?”
“Grafite. Foi muito popular no início do século.”
“As cores são tão vibrantes! O lírio parece vivo!”, Benjamim deu um suspiro. “Eu adoro flores amarelas! Pensando bem, eu acho que adoro lírios amarelos, em especial.”

Emílio evitou entrar nas divagações de Benjamim. Não sabia onde ele estava querendo chegar.

Mudando de tom, Benjamim voltou-se para Emílio.

“Você sabe o que isso significa?”
“O lírio amarelo?”
“Não o lírio amarelo em si, mas a pichação?”
“Não exatamente.”
“Significa que agora há dois pichadores afrontando minha autoridade. Significa que o prejuízo político pode ser incalculável se não tomarmos as providências cabíveis. Significa que temos que agir rápido. Significa que você deve reassumir seu cargo para enfrentarmos essa ameaça juntos.”
“Reassumir a Secretaria?”
“Imediatamente. E mande apagar esse lírio amarelo antes que amanheça. Mantenha a imprensa longe disso.”

Em poucas semanas, São Paulo floresceu. Brotaram lírios amarelos nos lugares mais inusitados da capital do mundo. E logo lírios brancos, alaranjados, lilases. E logo rosas, orquídeas, margaridas. A cidade parecia um jardim. As cores dos grafites se multiplicavam em flores, rostos, palavras e manifestos. Foi breve o tempo até que os espaços vazios fossem preenchidos pela criatividade dos pichadores, cada um a sua maneira, dizendo: Estou aqui!

Benjamim e Emílio indignavam-se com o retrocesso – e com o prejuízo político – mas, quando já não estavam mais no poder, não podiam deixar de olhar para os muros e monumentos com outro olhar. Ainda criticavam o sem sentido que é rabiscar palavras incompreensíveis, revoltavam-se com a falta de respeito à propriedade pública ou alheia, assustavam-se com a quantidade de desenhos espalhados pela paisagem.

Porém, às vezes, somente às vezes, admiravam algumas obras de arte saídas de sprays, nascidas de uma resistência antiga.





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Um comentário:

  1. Agora deu que queria ver São Paulo assim. E eu trocaria fácil os grafites de lírios amarelos por ipês. Esta cidade precisa de mais ipês. Ai, ai, ai.

    Mando abraço!

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